O segundo sinal de alerta

O confronto, na tarde de quarta-feira, entre a Polícia Militar (PM) e moradores da Favela Tiquatira, na Penha, provocado pela prisão de três traficantes, que durou quase quatro horas e deixou um saldo de três feridos - dos quais dois policiais -, veículos incendiados e perturbação no trânsito, tem características que o tornam altamente preocupante. Como ele tem pontos em comum com outro episódio ocorrido em fevereiro, este na Favela Paraisópolis, é grande e justificado o temor de que possa estar em curso um processo capaz de levar a situações como a vivida pelo Rio de Janeiro, o que deve ser evitado a todo custo, enquanto é tempo.Tudo começou quando PMs que fazem patrulhamento na região detiveram três rapazes, numa quadra esportiva do bairro, e foram imediatamente cercados por um grupo de moradores, determinados a libertá-los. Na confusão, dois conseguiram fugir. Com o terceiro a PM afirma ter encontrado 10 pinos com cocaína, 5 trouxinhas de maconha e 12 bolinhas de haxixe. A partir daí o tumulto, que durou até as 20 horas, começou a adquirir grandes proporções. A Avenida Gabriela Mistral, paralela à Marginal do Tietê, foi bloqueada com pneus e pedaços de madeira. Vias importantes da região, entre elas as pistas local e expressa da marginal, no sentido da Rodovia Ayrton Senna, ficaram interditadas. Em pouco tempo a região virou um campo de batalha. Um grupo parou um ônibus articulado da linha Terminal São Miguel-Parque Dom Pedro, fez descer os passageiros e ateou fogo no veículo. Usando "coquetéis Molotov", pessoas vindas da favela também incendiaram um micro-ônibus, um caminhão e um carro de passeio. Segundo o testemunho da condutora do micro-ônibus, logo que os passageiros saíram, "eles começaram a dar tiros na parte de baixo do veículo". Foi uma ação executada com rapidez e precisão por grupos bem organizados e armados e não por simples moradores. Tudo indica, portanto, que o confronto foi provocado por traficantes, que insuflaram os moradores a reagir contra a polícia, alegando como sempre que os detidos eram inocentes trabalhadores, e se encarregaram das ações mais violentas.A favela foi cercada por 120 homens da PM, que tiveram a ajuda do helicóptero Águia para se orientar. Foram utilizadas balas de borracha e bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes. Tanto a polícia tentou agir com moderação que, dos três feridos, só um era morador da favela - uma mulher socorrida com suspeita de fratura na perna. Os outros eram policiais, um soldado e um tenente. A ocupação da favela pela PM tornou-se indispensável para restabelecer a ordem e identificar e prender os responsáveis pelo bloqueio das ruas e o incêndio dos ônibus. Nas favelas de São Paulo, como nas do Rio e de outras grande cidades brasileiras, a imensa maioria dos moradores é constituída por trabalhadores. Pessoas honestas que querem viver em paz. O problema é a minoria de traficantes que lá se refugia e tenta impor sua "lei", intimidando os moradores. No Rio, há tempos eles conseguiram dominar vastas áreas da cidade. Nelas, as forças policiais são recebidas a bala e já houve casos notórios de autoridades que tiveram de negociar sua ida ali com os chefões do tráfico. Uma situação absolutamente inaceitável, pois o Estado não pode abdicar do controle de áreas, mínimas que sejam, de qualquer cidade, muito menos de uma da importância do Rio. Impedir a todo custo que se repita em São Paulo o que se passa na antiga capital da República é o que se espera do governo do Estado. É preciso agir com urgência e com o máximo de energia, porque esta foi a segunda vez em pouco mais de três meses que o sinal de alerta soou. A primeira foi no dia 2 de fevereiro passado, na Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, perto da Favela Paraisópolis, quando dezenas de pessoas entraram em confronto com PMs. O motivo foi a morte, no dia anterior, em confronto com a polícia, de um ladrão de carros e traficante, morador da favela. Tal como agora, houve destruição e incêndio de carros, queima de pneus e montagem de barricadas para impedir a entrada da polícia na favela.

, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

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