O sequestro da praça

Uma cena de violência na Praça Roosevelt, em que guardas-civis metropolitanos reprimiram skatistas que usavam o local de modo irregular, escancarou uma situação que se torna comum em São Paulo: o espaço público é "privatizado" por grupos com interesses comuns, as chamadas "tribos", em detrimento dos demais cidadãos. Os skatistas que infestam a Praça Roosevelt, constituindo grave ameaça à integridade física dos outros frequentadores, são apenas um dos tantos exemplos dessas "tribos" que, munidas de inabalável certeza, se consideram donas de pedaços da cidade.

O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2013 | 02h07

O caso da praça teve grande repercussão porque um dos skatistas envolvidos na confusão filmou tudo com seu celular e publicou nas redes sociais da internet, a título de denúncia. As imagens começam já no momento em que um guarda-civil à paisana imobiliza um skatista e claramente o ameaça, cercado por outros guardas, estes fardados. Uma guarda-civil chega a jogar gás de pimenta em skatistas que testemunhavam a cena. Embora não se saiba o que aconteceu antes - um guarda disse que foi recebido a pedradas pelos skatistas -, o fato é que os agentes de segurança atuaram de forma desnecessariamente violenta, em especial o que estava à paisana. A Prefeitura afastou todos os envolvidos e informou que irá investigar o caso. Espera-se que haja alguma forma de punição - é preciso tirar os maus policiais das ruas -, mas espera-se igualmente que o poder público imponha a ordem na praça, impedindo que os skatistas a transformem em seu território particular. A julgar pelo que aconteceu até agora, porém, a perspectiva é de vitória daqueles que sequestraram a Roosevelt.

A praça, que era um dos tantos locais degradados do centro de São Paulo, passou dois anos fechada para uma reforma, que custou R$ 55 milhões. Foi reaberta em 29 de setembro e, em questão de horas, já estava tomada pelos skatistas, cujas manobras - que dilapidam o patrimônio público e se estendem madrugada adentro - rapidamente se tornaram objeto de reclamações dos vizinhos. A praça não foi feita para a prática do skate e não há nenhuma parte dela em que os skatistas possam se divertir sem que isso represente algum risco para as crianças e os idosos que lá costumam passar algumas horas - um dia antes do incidente, um menino foi atingido na cabeça por um skate e teve de ser hospitalizado. Depois de muitas queixas, a Prefeitura fez, em outubro, uma reunião entre os moradores da região e os skatistas, para tentar chegar a um acordo para disciplinar o uso do skate. Ou seja: a administração municipal, talvez com medo da repercussão negativa de uma eventual repressão aos skatistas, já que essa turma milita ferozmente nas redes sociais, achou um jeito de legitimar a ocupação da praça. Ocioso dizer que o acordo não valeu a saliva gasta na negociação, e tudo voltou a ser como era: de um lado, valentes skatistas voando com suas pranchas; de outro, cidadãos intimidados.

Depois da agressão aos skatistas, não tardou para que outras "tribos" se manifestassem em solidariedade. Um grupo de ciclistas, por exemplo, chegou a dizer que o skate é um meio de transporte como qualquer outro! Quem já teve de desviar de um desses desvairados que arriscam a vida entre carros na Paulista ou em outras avenidas pode dimensionar o tamanho dessa irresponsabilidade, transformada em bandeira política em tempos de demonização dos automóveis. Além disso, para esses ciclistas militantes, os skatistas têm todo o direito de praticar seu esporte onde bem entendem, já que são jovens e precisam gastar energia em atividades de lazer. O resto da sociedade que se ajeite.

Seja de bicicleta, de skate ou de patins, para que haja convivência razoável numa cidade tão complexa como São Paulo, é necessário entender que ser cidadão não é ter direito ilimitado ao espaço público, cuja utilização está sujeita a regras de civilidade. A condição de "jovem" e a oposição tatibitate aos que andam de carro, uma causa que infelizmente está na moda, não dão a ninguém autoridade moral para ditar essas regras.

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