O soco do papa

A bordo do avião, no seu giro pelas Filipinas, papa Francisco disse a jornalistas que daria um soco em quem xingasse sua mãe, mesmo se o ofensor fosse um grande amigo. Considerou, assim, "natural" responder com violência a certas provocações. Não esclareceu, porém, como reagiria se o agredido revidasse com pontapés.

Fábio Ulhoa Coelho, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2015 | 02h05

É estranho ouvir isso de alguém que se apresenta como sucessor de Jesus. Afinal, se há algo que até mesmo os ateus devem reconhecer é o marco essencial no processo civilizatório representado pela Boa Nova de que foi portador o jovem crucificado. Refiro-me à mensagem fundamental do cristianismo, a de que devemos sempre perdoar nossos inimigos.

Ao tempo em que viveu Jesus, o conceito assente era o da lei de talião, sintetizada na noção de "olho por olho, dente por dente". A essa forma de responder a conflitos Jesus contrapôs a revolucionária concepção de "oferecer a outra face". Provavelmente, ele diria ao papa: "Sem dúvida, é natural dar um soco a quem ofende nossa mãe, mas o mundo é melhor quando deixamos de agir segundo os ímpetos da natureza e procuramos nos entender de modo civilizado".

Com a difusão do cristianismo, impulsionado pela conversão do imperador Constantino, no século 3.º, o processo civilizatório da espécie humana deu um extraordinário salto graças à Boa Nova, a essa forma de compreender como deve ser o convívio em sociedade. Não há nenhum exagero em considerar que os saudáveis frutos da civilização ocidental de raízes europeias (democracia e liberdades civis) se assentam nessa mensagem cristã fundamental. Relevar faltas alheias, mesmo as que gravemente nos prejudicam, pressupõe aquele elevado grau de tolerância indispensável ao fortalecimento das sociedades democráticas.

Mas por que o papa cogitou de socar o amigo?

Francisco estava repercutindo para jornalistas que o acompanhavam naquele voo uma crítica indireta que fizera, dias antes, ao Charlie Hebdo. Sem chegar ao extremo de culpar as vítimas pelo crime, o papa havia reclamado da forma desrespeitosa como o veículo trata as religiões. Desrespeito que não se limita à religião muçulmana, embora esta pareça ser a preferida dos sarcasmos do hebdomadário. Também a religião católica e o próprio Papado têm sido constantemente desrespeitados pelo Charlie.

Na avalanche de despropósitos ouvidos após o atentado, houve quem dissesse que o terror havia vencido, pois alguns veículos de imprensa continuavam a não exibir as lamentáveis caricaturas do jornal brutalmente atacado. Viram nessa atitude jornalística até uma dose de covardia. A visão simplista desses críticos não alcança a extensão do princípio jurídico, político e moral: defender a liberdade de expressão mesmo daqueles de quem se discorda; principalmente destes, aliás. Não é preciso reproduzir o que se considera errado para defender o direito do outro de se manifestar livremente.

Eis o cerne da questão: nem todos usam a liberdade de expressão que desfrutam do mesmo modo. Uns a usam com desrespeito às crenças alheias, enquanto outros não se sentem minimamente confortáveis fazendo isso. Afinal, é sempre possível sermos livres e gentis ao mesmo tempo. Se muçulmanos se sentem agredidos com caricaturas de Maomé, por que não ser gentil com eles? A gentileza não reduz a liberdade de expressão nem é sinal de acovardamento. É, sim, a mais pura vivência da tolerância, ingrediente essencial da democracia.

A liberdade de expressão é um dos saudáveis frutos da civilização de raízes europeias. E temos de ser livres também para definir o modo de usar essa liberdade. Não existirá verdadeira liberdade de expressão se houver algo que não possa ser dito, desenhado, criticado objetivamente ou satirizado desbragadamente. Se alguém quer ganhar dinheiro vendendo jornal com caricaturas de Maomé, ele tem esse direito. Os muçulmanos que se sentirem ofendidos e as pessoas que não quiserem compactuar com tamanha falta de sensibilidade devem simplesmente não comprar o jornal.

Jesus não teria recomendado um soco, muito menos tiros letais como resposta aos acintes cometidos. Teria apenas dito ser necessário perdoar os caricaturistas do Charlie Hebdo.

Na verdade, o soco do papa é uma imagem desconectada não só com a doutrina cristã. Está desencontrada com a realidade também. O atentado terrorista a que assistimos neste início de 2015 decididamente não foi uma reação momentânea, destemperada e espontânea a uma injusta, inoportuna e reiterada provocação. Nada de impensado ou improvisado se consegue vislumbrar na invasão às dependências do periódico no exato momento em que estavam reunidos seus principais colaboradores. Ao contrário, o atentado atendeu às pautas racionais da organização terrorista que reivindicou a autoria. Foi friamente concebido e planejado com antecedência e em lugares distantes de Paris.

O mundo não ficara mais inseguro porque um punhado de jornalistas franceses, ao usar a liberdade de expressão, não demonstrara suficiente sensibilidade com os muçulmanos. Não aconteceu de alguns poucos exaltados serem tomados de repentino ódio, que acabaram expressando ao assassinar paladinos da liberdade de expressão. Não nos iludamos: se o Charlie não existisse ou mesmo se ele tivesse suspendido a publicação de caricaturas de Maomé, os terroristas escolheriam outro alvo. Talvez explodissem a Torre Eiffel.

Aos insensíveis jornalistas do Charlie e aos organizadores e executores dos calculados assassinatos, malgrado a enorme distância entre a gravidade dos atos de cada um deles, a resposta autenticamente cristã seria igual: o perdão. O Estado democrático, por sua vez, deve responder de modo diverso, homenageando aqueles em nome da liberdade de expressão e combatendo duramente estes, para a segurança de todos. E para isso é laico.

*Fábio Ulhoa Coelho é jurista

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