O tempo curto e o tempo longo

Essencial em toda análise qualificada da política, o tempo curto da conjuntura pode, em alguns casos, criar dificuldades para a elaboração de uma compreensão das relações de força que se estabelecem nas definições das grandes orientações de futuro. A análise da política depende da captura do sentido da ação e do movimento dos atores, mas também da capacidade de previsão dos vetores que neles estão supostos. 

Alberto Aggio, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2015 | 02h30

Assim, visto como um terreno em que se averigua passo a passo a conjuntura, a análise do tempo curto pode ser muito útil quando compreendida num quadro de relações de força de mais largo fôlego. Operação nada trivial, tanto para atores quanto para intérpretes, a conexão entre o tempo curto e o tempo longo configura-se como uma tarefa desafiadora, particularmente em períodos de crise aguda e de impasses temerários diante dos quais, especialmente para os primeiros, qualquer resolução ou decisão pode custar a vida ou a morte. Desprovido dessa conexão e trabalhado de maneira mais voluntarista do que analítica, o tempo curto pode cristalizar um conjunto de representações disformes do real, o que, em política, é frequentemente fatal.

A crise que vive o País, produzida pelo governo Dilma e que arrasta junto o PT, estimula e legitima a leitura do tempo curto. Contudo ainda é cedo para saber se dele poderá emergir a chave que abrirá as portas em direção ao futuro. Isso dependerá da sagacidade, da serenidade e também da intransigência dos atores diante das questões republicanas que a crise carrega. Em meio ao turbilhão que acopla à crise política uma crise econômica cujo prognóstico é o de ser a mais prolongada e profunda da era do real, estendendo-se pelo mandato da presidente, caso não haja impedimento, diferentes conexões com o tempo longo fazem emergir um conjunto de expectativas diversas, dentre elas a visão de que a crise pode desembocar não apenas no fim de um governo, mas na abertura de uma “era pós-PT”, como escreveu Zander Navarro neste espaço. Em versões mais tenebrosas, diagnósticos mais acres se reportam ao fim de uma época iniciada quando da superação da ditadura. De acordo com essa leitura, chegamos, todos “exaustos”, à crise atual, que, por suas características - das quais a “trégua petista” e o lulismo são parte intrínseca -, só nos reserva à frente décadas de barbárie. Um diagnóstico de selo catastrofista, que se recusa a apontar qualquer saída política para a crise, nem mesmo a sempre mencionada e extemporânea proposta de uma Assembleia Constituinte, como se o País estivesse a demandar mudanças integrais, típicas de processos que substituem uma ordem política por outra, como se passou com a elaboração da Constituição de 1988. 

Apesar de certos arroubos e de ênfases descabidas, a situação, de fato, não guarda pouca dramaticidade e é ocioso procurar saídas rápidas e aparentemente fáceis. No governo e até na oposição é difícil encontrar atores capazes de conectar o tempo da crise contingente com perspectivas efetivas de um futuro melhor, mesmo que isso seja projetado para um tempo longo. No geral, predominam retóricas unilaterais e imediatistas, sem nenhum viço, visando a defender de olhos fechados um dos lados. O que se comprova, por exemplo, quando a presidente exagera ao enfatizar a cada discurso a noção de “travessia” como um mantra dogmático que supostamente a possa purificar sempre que vocalizado. O mesmo acontece quando seus apoiadores convocam, em palácio, uma descida às ruas, de “armas na mão” e “entrincheirados”, para resistirem ao suposto e delirante “golpe urdido pela burguesia”.

Na crise agônica do governo Dilma, o movimento dos principais atores parece levar-nos diretamente a um passado reconfigurado por meio de uma sobreposição fantasmagórica de tempos, grupos e personagens. É assim que vemos ressurgirem atores e projetos que compuseram a cena brasileira na ditadura e na luta contra ela. O que gera uma sensação de repetição farsesca da História, agravada pela dificuldade de compreender que, de fato, há um esgotamento dos nexos políticos que sustentaram o processo de democratização e que o País deveria avançar no sentido de formular uma nova agenda de reformas ou mesmo um novo projeto para o seu futuro. 

Mas não é isso que ocorre e o tempo longo sucumbe nas malhas do imediatismo e do autoengano. Como resultado, reaviva-se a centralidade do Legislativo, mas agora desprovido de uma vinculação produtiva com as ruas e sem nenhum vetor democratizador a orientá-lo, como se deu na época das Diretas-Já e no que se seguiu. Reapareceram os manifestos de empresários, artistas, intelectuais e juristas pedindo soluções para a crise, mas com notáveis discrepâncias entre eles. Volta à cena um petismo mimético de décadas atrás por meio de figurantes que descreem de seus próprios discursos ao pedirem que o atual governo negocie suas demandas e modere o ajuste fiscal, na vã expectativa de que Dilma e seus ministros os atenderão. Reatualiza-se, por fim, a expectativa num ator político que foi fundamental na resistência à ditadura e na construção democrática, o PMDB, mas que hoje não desempenha o mesmo papel democratizante do passado, por ter abandonado sua natureza “metafísica”, conforme identificado em seu tempo por Luiz Werneck Vianna, para assumir a “física” dos interesses fragmentados do grande empresariado nacional.

É provável que, alimentado pelas operações semanais da Lava Jato, o movimento pelo impeachment permaneça latente, embora contê-lo pareça ser o único objetivo do governo. Com o PMDB tornando-se enfim a “classe reinante”, Dilma poderá amainar a crise, mas imaginar que daí possa derivar um governo à Itamar Franco se configura uma aposta engenhosa. Olhando bem, dá a impressão de que se quer revirar a História pelo avesso, torturando os fatos.

*Alberto Aggio é professor titular de História da Unesp

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