O teste da América Latina

Sinônimo de crise e de instabilidade econômica na segunda metade do século 20, a América Latina foi uma das maiores e melhores surpresas da economia global no começo do terceiro milênio. O teste mais severo ocorreu a partir de 2008, quando o estouro da bolha financeira levou o mundo à Grande Recessão, o maior desastre internacional desde os anos 30 do século passado. Nenhum país escapou das ondas de impacto espalhadas pelo globo há cinco anos. Mas na maior parte dos países emergentes - e latino-americanos - os danos foram limitados e a recuperação logo começou. Também o Brasil entrou em recessão, embora o governo previsse uma simples marola, mas a reação foi registrada já em 2009 e em 2010 a economia cresceu 7,5%. Muitos países da região continuaram em crescimento nos anos seguintes. Sob esse aspecto, a evolução brasileira foi menos brilhante, mas o desempenho econômico do País durante a pior fase da crise foi tão admirável quanto o da maior parte da região.

O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2013 | 02h05

A mudança latino-americana foi ressaltada em uma comparação pelo professor José de Gregório, ex-presidente do Banco Central do Chile e ex-pesquisador do Fundo Monetário Internacional (FMI). Se há dez anos alguém perguntasse sobre a consequência para a América Latina de uma crise global muito forte, a resposta seria unânime: "Um desastre". Em um ensaio recém-divulgado e escrito para uma conferência organizada pelo FMI ele procura explicar esse episódio notável de resiliência. De modo geral, as mesmas explicações, segundo o economista José de Gregório, valem para a experiência recente da América Latina e para o caso dos demais emergentes.

Ele atribuiu a resistência à crise e a capacidade de reação dos latino-americanos a cinco fatores principais.

Em primeiro lugar, boas condições macroeconômicas no início da crise permitiram aos governos adotar fortes estímulos fiscais (como aumento de gastos e redução de impostos) e monetários. Em crises anteriores, até os anos 1980 e 1990, os governos da região eram forçados a apertar o orçamento, a elevar os juros e a cortar o crédito, por causa do mau estado das contas públicas e da inflação geralmente elevada.

O segundo fator foi o regime de câmbio flexível. A flexibilidade foi limitada, porque em alguns países os bancos centrais intervieram nos mercados para limitar a depreciação das moedas nacionais e seu efeito inflacionário. Mas, de modo geral, a flutuação das taxas facilitou a absorção do choque.

Boa sorte no comércio exterior foi o terceiro componente do quadro. Muitos latino-americanos são exportadores de commodities e os preços foram muito favoráveis a partir de 2006. Depois de um recuo na pior fase da crise, as cotações voltaram a níveis elevados.

Sistemas financeiros fortes, bem regulados e relativamente simples foram o quarto fator. A maior parte do ensaio é dedicada a esse assunto. O autor poderia ter lembrado, se tivesse espaço e disposição polêmica, o conselho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos governos do mundo rico: deveriam adotar a regulação brasileira, mais severa depois do Proer, o plano de socorro aos bancos no começo dos anos 90. Naquela época, o PT combateu o plano.

O grande volume de reservas internacionais, o quinto elemento, deu aos governos segurança para enfrentar a especulação e desestimular os ataques às moedas nacionais.

Se tivesse ainda um pouco mais de disposição para a polêmica, o autor do ensaio poderia ter lembrado o mais cruel dos detalhes: os países mais preparados para suportar o impacto da crise, a partir de 2008, foram aqueles fortalecidos em seus fundamentos econômicos pela aplicação de medidas pregadas tradicionalmente pelo FMI. A resistência à crise resultou da adoção, a partir dos anos 1980 e 1990, de medidas monetárias, fiscais e cambiais em geral combatidas pelos grupos autodenominados progressistas.

O abandono dessas políticas - efetivo, embora negado pela retórica oficial - é a explicação evidente para o mau desempenho da economia brasileira nos últimos anos. Em outros países da região, a prudência tem garantido resultados melhores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.