O tiririquismo

O bordão do deputado federal Tiririca em sua campanha pela reeleição emprega termos pouco afinados com o decoro que deve marcar a conduta pública dos parlamentares. Com a licença do improvável e bem-educado leitor, o dever da precisão exige que se reproduza aqui o slogan desse político, que se tornou um astro fulgurante no horário eleitoral em curso. "Tá de saco cheio da política?", pergunta ele, para emendar na sequência: "Vote no Tiririca". Na tela eletrônica, nosso astro aparece caracterizado como o palhaço que o tornou um nome famoso: peruca branca, roupas de cores gritantes, voz aguda, risadinha cínica. Graças a ele o Zorra Total fincou sua bandeira na propaganda partidária.

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2014 | 02h04

Os pouquíssimos telespectadores que, não se enquadrando no estado de irritabilidade descrito pela pergunta chula do recandidato, ainda têm, digamos, estômago para enfrentar o nauseante desfile de nomes de fantasia, números de decoreba e fotografias de mau gosto na TV contam que o Partido da República (PR), que dá legenda a Francisco Everardo Oliveira Silva, o notório Tiririca, entregou a ele praticamente todos os minutos de que dispõe para anunciar seus candidatos à Câmara dos Deputados. Se isso for mesmo verdade (para comprovar é preciso assistir a tudo aquilo com os próprios olhos, operação insalubre e pouco aconselhável), o motivo é elementar. Vamos a ele.

Nas sondagens disponíveis, os prognósticos dão conta de que o nobre deputado Oliveira Silva deverá sair das urnas como o nome mais votado do Estado de São Paulo. Portanto, carregará para Brasília outros candidatos de sua legenda, por menos votos que cada um desses outros obtenha. É da regra do jogo. O senhor Oliveira Silva está em cartaz como "puxador de votos". Quem tem 1,3 milhão de sufrágios - como ele alcançou em 2010 - elege automaticamente um punhado de outros. O eleitor paulista conhece bem esse golpe do quociente eleitoral. Quem votava em Enéas, cuja escola de palhaçada era a sisudez histérica, elegia os tipos que vinham atrás dele na fila. Agora é a mesma coisa: quem vota em Tiririca elege gente de quem nunca viu a cara. O PR agradece.

E quem é o PR? Sejamos respeitosos. O PR é aquele que, nos estertores de junho, resignou-se patrioticamente a apoiar a recandidatura de Dilma Rousseff. Sua Executiva Nacional decidiu, no dia 30 de junho de 2014, entrar na coligação de reeleição da presidente da República. Dias antes, por mera coincidência, é lógico, Dilma substituíra César Borges por Paulo Sérgio Passos no Ministério dos Transportes, o que, casualmente, era do agrado da cúpula do PR.

Às vezes, certas cenas em torno do poder parecem piadas do Tiririca. A propósito, o PR é a cara do Tiririca. Foram feitos um para o outro. Se Tiririca é um palhaço, como declaradamente é, o dono do circo é o PR - que, por sua vez, é a cara da coligação que fez da recandidatura Dilma esse picadeiro de horrores, em que Sarney é admirável, Collor é respeitável e, bem, fiquemos por aqui. Por debaixo dessa lona, Tiririca é a atração mais inocente; o resto do espetáculo não é recomendável para menores de 18 anos.

A essa modalidade pesada de demagogia, que consiste em engrupir o eleitorado com piadas infantis enquanto o indizível se perpetra na escuridão do esgoto, dá-se o nome tiririquismo. O tiririquismo não é algo banal, não é o culto de um apelido vulgar. Se fôssemos seguir a escolástica das bibliografias em voga, diríamos que o tiririquismo é um pacto social tácito mediado por uma peruca branca e financiado pela credulidade popular, que torna viável o escambo essencial: em troca de umas boas risadas, a massa oprimida prorroga a validade da coalizão que já está lá em cima, bem instalada. O tiririquismo é o denominador comum possível para uma ideologia de ocasião sem nenhuma ideologia de fundo. O tiririquismo dá ao povo uma mentira que até o povo sabe que é mentira, mas na qual é divertido acreditar. Por isso - e também por alguns bilhõezinhos de dólares - as forças que já foram getulistas, brizolistas (não nos esqueçamos) e lulistas agora gargalham, tiririquistas até a medula.

Os mal-humorados se enfurecem ao ver o Tiririca na TV. Dizem que, se o nobre deputado Francisco Everardo Oliveira Silva aparecesse em plenário fantasiado de Tiririca, seria expulso do recinto e sofreria um processo na Comissão de Ética por quebra de decoro. Inconformados, os rabugentos se perguntam: se ele não poderia entrar como Tiririca no Congresso Nacional, como é que pode pedir votos no horário eleitoral oficial com esse figurino? Não é uma contradição? O PR, patrocinando esse sujeito que compara a capital federal a um carro velho que já foi personagem da canção dos Mamonas Assassinas não estaria faltando com o respeito à Câmara dos Deputados?

Eles espumam. Como um partido político, responsável pela política que aí está, pode instar seus eleitores a ficar "de ... cheio da política" e ainda pedir votos em nome disso? Como a celebração dos que estão "de ... cheio" pode engordar as urnas de um partido político? Não é um acinte? Se as pessoas estão "de ... cheio", isso não se deve exatamente a esse circo que a coligação majoritária ajudou a erguer? Como, então, o "... cheio da política" pode servir como cabo eleitoral em prol da mesma política?

Os mal-humorados gastam sua raiva em vão. O tiririquismo segue impávido e ainda ri dos indignados. O tiririquismo a que se converteu a coligação que manda hoje no Estado despolitiza o horário eleitoral, com palhaçadas ou com mentiras infamantes contra qualquer um(a) que incomode, tanto faz, não para acabar com a política, não para pirraçar os enfezados, mas para simplesmente afastar o povo da política. O tiririquismo nega a política em público, para controlá-la em privado. Você pode bufar, você pode estrilar, você pode até rir ou dar de ombros. Não adianta. O tiririquismo não se vexa. Deve levar a melhor.

*Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP

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