O trabalho em crise

Cinco anos depois do estouro da crise internacional, o Primeiro de Maio foi mais uma vez uma data de protestos e manifestações contra as políticas oficiais no segundo mais importante mercado do globo, a União Europeia. Ninguém deve contar com a contribuição da Europa, ainda por um bom prazo, para a recuperação global. Alguns emergentes, liderados pela China, continuarão sendo os focos mais notáveis de dinamismo, agora reforçados pelos Estados Unidos.

O Estado de S.Paulo

03 Maio 2013 | 02h08

No mundo rico, a economia americana é a exceção mais importante, com crescimento de 2,2% no ano passado e de 2,5% anualizados no primeiro trimestre deste ano, segundo a estimativa inicial. O Japão, graças à política recém-inaugurada pelo governo e pelo banco central, poderá juntar-se ao grupo, mas isso ainda é uma expectativa otimista.

A cena da Europa é muito diferente. Com 26,5 milhões de desempregados em março, equivalentes a 10,9% da população ativa, o mercado de trabalho dos 27 países da União Europeia piorou em um ano, com acréscimo de 1,8 milhão de pessoas ao contingente de desocupados. Na zona do euro, onde estão os países mais endividados e mais afetados pela insegurança financeira, 12,1% dos trabalhadores, ou 19,2 milhões de pessoas, estavam em busca de emprego naquele mês.

Para os 17 países da área do euro o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta uma contração econômica de 0,3%, em média, em 2013. Sob certos aspectos, será um resultado melhor que o do ano passado, quando o produto bruto da região encolheu 0,6%.

Mas é preciso qualificar esse progresso. Com desemprego maior, a situação social agravou-se e tem ficado mais forte, em vários países, a pressão por mudanças na política econômica. As manifestações dessa quarta-feira refletiram a insatisfação de parcelas crescentes da sociedade. A mesma inquietação tem sido revelada por outros sinais, como o recente impasse político na Itália e a impopularidade do presidente François Hollande, com índices de confiança abaixo de 30% em pesquisas recentes - algo anormal no caso de um governante em começo de mandato.

Apesar de elevada, a média da zona do euro dá uma ideia muito imperfeita das condições de emprego nas economias mais afetadas pela crise. Os números nacionais variavam desde 4,7% na Áustria e 5,4% na Alemanha até 17,5% em Portugal, 26,7% na Espanha e 27,2% na Grécia. O desemprego oscilava entre 4,7% e 9,9% em 14 países da União Europeia, na última relação publicada pela agência regional Eurostat. Nos demais, o menor número era 10,7%.

O quadro fica mais feio quando se decompõe o desemprego por grupos de idade. Em março, 23,5% dos trabalhadores com menos de 25 anos estavam desocupados na União Europeia. Na zona do euro, 24%. Nos Estados Unidos, em março, o desemprego medido oficialmente correspondia a 7,6% da força de trabalho. No Japão, o último número, de fevereiro, indicou 4,3%. Nesta sexta-feira o governo deverá atualizar a estatística americana. Se for apontado algum aumento, a taxa ainda será bem inferior à média europeia.

O FMI estima um crescimento de 1,2% para as economias avançadas neste ano e de 2,2% no próximo. Para a zona do euro a expectativa é de contração de 0,3% em 2013 e de expansão de 1,1% em 2014. Para a Alemanha, os números indicados são 0,6% e 1,5%, ambos positivos. Para o Japão, 1,6% e 1,4%.

O grande entrave ao crescimento americano deve ser o freio no gasto público. O Executivo foi incapaz de conseguir um acordo com a oposição para evitar o corte orçamentário abrupto. Apesar disso, a economia dos Estados Unidos, segundo as indicações disponíveis até agora, continuará avançando, embora menos do que seria possível com uma política orçamentária menos restritiva. Limitações fiscais já ocorreram no ano passado, mas, apesar disso, a produção aumentou, puxada não só pelo consumo, mas também pelo investimento privado e pelas exportações. Vários fatores devem ter favorecido essa evolução. Um deles é certamente a flexibilidade da economia americana.

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