O triunfo da tolice

Reinações da monarquia da malandragem são surpreendentes e também perigosas

*Flávio Tavares, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2017 | 03h06

A cada início de ano o futuro desponta como indagação. A expectativa é o grande componente da vida e ansiamos por oráculos, mesmo sem confiar neles. Não visitamos videntes ou cartomantes e similares, mas o longo amanhã ainda nos perturba.

Não podemos recorrer ao sabichão Dr. Google, que guia o planeta, pois sabe apenas do presente e do passado. E nem é preciso. No Brasil, basta analisar, medir e pesar os fatos do cotidiano para vislumbrar como será o amanhã.

Nosso país se intitula República mas, em verdade, vivemos no Reino da Malandragem, sob gigantesca monarquia de tons absolutistas (como as da Idade Média) que, a cada dia, aperfeiçoa os métodos de governança em proveito pessoal dos governantes.

Nós, os governados, ficamos de fora. Para disfarçar, Suas Majestades (no plural, pois vários são os reis e as reinações) encobrem o crime atirando sobre nós as migalhas do banquete. Ou não foi esse o presente de Natal com que o presidente Temer “estimulou a economia” ao “liberar” a retirada das contas inativas do FGTS?

Dias antes, o presidente (junto a seu círculo íntimo) aparecera citado entre os grandes beneficiários da corrupção desvendada pela Operação Lava Jato. As delações premiadas dos antigos diretores da Odebrecht revelaram a engrenagem profunda do conluio entre políticos e o setor empresarial. Com detalhes, mostraram algo que nem a mais fantasiosa pitonisa ousaria apontar como possível – os políticos atuavam como serviçais das grandes empresas, cumprindo à risca o que elas mandavam.

Cláudio Melo Filho, então diretor do departamento de subornos da Odebrecht, foi categórico: “Para fazer chegar a Michel Temer os meus pleitos eu me valia de Eliseu Padilha ou Moreira Franco, que o representavam. Era via de mão dupla, pois o atual presidente da República também utilizava seus prepostos para atingir interesses pessoais, como no caso de pagamentos de que participei, operacionalizados via Eliseu Padilha”.

Para evitar erros de interpretação, explicou como funcionava a engrenagem: “O propósito da empresa era manter uma relação frequente de concessões financeiras e pedidos de apoio com esses políticos, em típica situação de privatização indevida de agentes políticos em favor de interesses empresariais nem sempre republicanos”.

A delação premiada foi adiante: na orgia dos subornos apareceram muitos dos chamados “grandes nomes” dos grandes partidos – do PMDB ao PT, do PSDB ao PP e ao DEM – e dos nanicos da “base alugada”. Era início de dezembro e a modorra de fim de ano fez esquecer quase tudo. Até mesmo a reação de Temer, que culpou a “ilegítima divulgação” do conteúdo das delações pelo “clima de desconfiança e incerteza” na economia...

Pouco antes havíamos visto o presidente da República descer da majestade do seu posto e intervir na disputa em que seu velho amigo, o então ministro e articulador político Geddel Vieira Lima, exigia (para mero deleite pessoal) que o ministro da Cultura burlasse a lei, o bom gosto e o bom senso. Em seis meses de governo foi o quinto escândalo envolvendo ministros, três deles da intimidade presidencial.

A monarquia da malandragem tem reinações surpreendentes e, ao mesmo tempo, perigosas. A série de delações premiadas recorda a bomba atômica sobre Hiroshima. Talvez desnude a corrupção por inteiro e leve a vencer a guerra. Todos festejaremos, então, mas sob o impacto do medo, pois talvez não sobre ninguém sem mácula ou sem culpa na área política. Como na radiação nuclear, vestígios imperceptíveis ficarão no ar, poluindo ainda mais o tosco ambiente político e transformando a chusma reles num monturo de messias.

A Alemanha que abriu caminho ao Hitler messiânico era uma balbúrdia financeira, mas sem corrupção. Os aventureiros, porém, são encantadores de serpente e guiam o fanático escondido em nosso ego.

Aqui, cada nova investigação aprofunda mais o horror. Agora atuam também promotores da Suíça e do Departamento de Justiça dos EUA. Os suíços constataram que, de dezembro de 2005 a junho de 2014, mais de 440 milhões de francos (1 bilhão e 400 mil reais) da Odebrecht passaram por bancos de Genebra e Zurique, destinados a políticos e altos funcionários. Cada dólar de propina significava um lucro de quatro vezes mais em sobre preço. Os norte-americanos afirmam que, de 2003 a 2006, mais de R$ 1,1 bilhão foram pagos em propina.

Nada, porém, supera o tragicômico do horror da mais recente descoberta da Polícia Federal envolvendo a “LILS Palestras e Eventos”. A empresa, cuja sigla são as iniciais de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2011 a 2016 recebeu R$ 28 milhões das empreiteiras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, UTC, Odebrecht e de outras boas companhias às quais o ex-presidente prestou serviços.

A Cervejaria Petrópolis pagou R$ 1,5 milhão por três discursos em que Lula – tal qual garoto-propaganda – recomendou “beber a cerveja Itaipava”, ostensiva e abertamente. Em novembro de 2013, em mensagem a Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, o dono da cervejaria, Walter Faria, apontou até o que ex-presidente devia dizer ao inaugurar nova fábrica na Bahia: “... dizer que ‘a Itaipava é a cerveja preferida por ser 100% brasileira’ e também, como ele já disse em Atibaia – ‘não bebo muita cerveja, mas quando bebo é Itaipava’, seria ideal”.

E Lula discorreu longamente sobre os sabores e benefícios da cerveja!

Essa ridícula mercantilização da figura política não foi superada sequer pelas compras de alimentos e bebidas para o avião de Temer, no total de R$ 1,74 milhão, suspensas depois que a imprensa divulgou o edital com preços duas vezes além dos usuais. Além de “finesses”, iam comprar 600 rolos de papel higiênico e gastar R$ 42 mil em gelo.

O triunfo da tolice seria apenas anedótico e hilariante se não envolvesse aqueles que foram ou são nossos governantes. Vindo deles, é afrontoso.

*Jornalista e escritor, prêmio jabuti de Literatura em 2000 e 2005

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