O tsunami continua

Os principais centros de estímulo à economia do mundo rico são hoje os bancos centrais, empenhados em fabricar dinheiro para facilitar o crédito e manter a estabilidade do sistema financeiro. Cinco anos depois do início de uma crise global ainda longe do fim, os mercados continuam muito mais sensíveis às palavras ou gestos de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed), e de Mario Draghi, do Banco Central Europeu (BCE), do que aos discursos da maioria dos ministros de Finanças dos países desenvolvidos. Com inflação muito baixa, desemprego alto e aperto fiscal na maior parte do mundo industrializado, decifrar comentários e intenções de umas poucas estrelas conhecidas como autoridades monetárias pode ser a diferença entre enormes ganhos e perdas.

O Estado de S.Paulo

24 Maio 2013 | 02h08

O Fed, banco central americano, continuará a trabalhar pela reativação da economia ainda por um bom tempo, disse Bernanke, na quarta-feira, em depoimento no Congresso. Os juros básicos serão mantidos entre zero e 0,25% ao ano enquanto as projeções apontarem uma inflação abaixo de 2,5% (a meta de longo prazo é de 2%) e o desemprego estiver acima de 6,5%. Esse compromisso havia sido anunciado logo depois da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), encerrada no dia 1.º do mês.

Não se esperava novidade quanto a esse ponto, mas o presidente do Fed poderia dizer algo mais preciso sobre as compras - até agora no valor de até US$ 85 bilhões mensais - de papéis do Tesouro e de títulos vinculados às carteiras hipotecárias de instituições públicas.

Segundo o Fomc anunciara, essas operações poderiam ser aumentadas, nos próximos meses, de acordo com a evolução da economia. A mudança mais provável, segundo o pessoal do mercado, seria a redução. Isso interromperia a enxurrada de dólares e a moeda americana tenderia a subir. Bernanke reafirmou a informação do comitê, mas, ainda assim, o dólar valorizou-se em relação às principais moedas, na quarta-feira, porque os investidores deram mais peso à possibilidade de mudança gradual da política.

O governo brasileiro poderia aplaudir essa decisão. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem acusado os bancos centrais dos países desenvolvidos de inundar o mundo com dinheiro, provocando a valorização do real e de outras moedas. A presidente Dilma Rousseff usou mais de uma vez a expressão "tsunami monetário", atribuindo a esse fenômeno o desajuste do real e a perda de competitividade da indústria brasileira. O único problema para o governo do Brasil seria perder um precioso conjunto de bodes expiatórios. O País continuaria ineficiente e com baixo poder de competição, porque seus problemas vão muito além do câmbio, mas o discurso oficial perderia um atraente argumento.

De fato, é muito difícil de prever quando o Fed reduzirá as compras de títulos para irrigar o mercado mensalmente com dezenas de bilhões de dólares. É cedo para pensar nisso, disse Bernanke, apesar de alguns sinais positivos. O crescimento econômico no primeiro trimestre foi estimado em 2,5%, em termos anuais, e o desemprego caiu para 7,5% em abril, nível muito inferior ao da maior parte da Europa. A criação de empregos nos últimos seis meses superou, em média, 200 mil postos. Nos seis meses anteriores a média mensal havia sido inferior a 140 mil. Mas 8 milhões de pessoas, acrescentou Bernanke, ainda trabalham em tempo parcial e gostariam de contratos de tempo integral. O mercado de empregos continua fraco e a desocupação continua bem acima dos padrões históricos.

Novos estímulos fiscais estarão fora de consideração enquanto governo e oposição continuarem incapazes de um acordo político sobre o assunto. O ideal, segundo Bernanke, seria um entendimento para elevação dos estímulos a curto prazo e um esforço maior para redução do déficit e do endividamento público em prazo mais longo. Por enquanto, resta a política monetária como instrumento de estímulo à economia. Não importam a choradeira dos outros nem o falatório sobre tsunamis monetários.

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