O último vestígio da guerra fria

Na juventude Fidel tentou ser ator em Hollywood e fez pontas em três filmes

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2016 | 04h00

O século 20 foi tempo de paixões fanáticas. Na política, exacerbados líderes, guias, chefes, oráculos e deuses humanos reuniram em torno de si todas as paixões – do amor ao ódio, da esperança e da fé cega à decepção e ao engano.

Fidel Castro foi um desses homens-deuses que reuniram todas as paixões. Cega, a paixão independe da razão e da realidade. Na política, por exemplo, nasce de ideias, mas se torna impermeável à própria ideia-mãe ao se transformar em fanática fantasia construída no inconsciente, fora da realidade.

Por isso Fidel só se define por meio das paixões que sua figura e seus atos transmitiram – amor e obediência, por um lado; ódio e irrestrito desdém, por outro. Libertador e déspota, ao mesmo tempo.

Com sua morte, o século 20 recém se apaga e sepulta a guerra fria, da qual ele era o último vestígio. Sim, pois sem o confronto entre EUA e União Soviética os guerrilheiros de Fidel não seriam considerados “ameaça” a Washington só por terem tomado o poder a 150 quilômetros de Miami. Após derrubar a tirania em Cuba, Fidel fora recebido no Capitólio, na capital dos EUA, e aclamado como “herói”. A paranoia gerada pela guerra fria mudou o olhar a partir do momento em que o novo governo realizou a reforma agrária. Era velha promessa dos “barbudos” guerrilheiros, mas afetava a United Fruit. A Casa Branca preocupou-se, então, com mais “um problema”, além de se sobrepor ao avanço tecnológico-militar e espacial soviético.

E veio o embargo a Cuba. Em 3 de janeiro de 1961, quando o presidente Dwight Eisenhower (17 dias antes da posse de John Kennedy) rompeu relações diplomáticas, Cuba ainda não era satélite e joguete da União Soviética. Nem em abril, quando 1.500 cubanos armados e treinados pela CIA invadiram a ilha e foram derrotados. Num mundo dividido em “dois blocos”, a eventualidade de nova invasão acabou fazendo com que dias depois, em 1.º de maio, Fidel proclamasse Cuba como “Estado socialista”. Até Moscou se surpreendeu.

Pequena ilha com menos da metade da superfície de São Paulo, Cuba fora, sempre, “pátio de despejo” dos EUA. A máfia controlava a prostituição e cassinos, toda a economia estava em mãos de empresas americanas.

E Fidel entregou-se a Moscou como uma virgem adolescente nos braços do namorado proxeneta. Em parte, isso talvez lhe soasse como vingança: na juventude ele tentara ser ator em Hollywood e fez “pontas” em três filmes (Escola de Sereias, Bathing Beauty e Holiday in Mexico), mas voltou a Cuba. Passou à política, foi preso e depois, pelas armas, triunfou.

A sedução dos discursos e da fala foi o que nele ficou da frustração de ser astro de cinema. Fidel conhecia seu poder histriônico. Em 1990, quando veio ao Brasil para a posse de Collor, eu o acompanhei (como jornalista) num domingo por vários lugares de São Paulo. Só não entrei no almoço que Lula lhe ofereceu em São Bernardo. Ele vestia farda de gala, com galões dourados e gravata e correu ao hotel para trocar de roupa e envergar a túnica verde-oliva de guerrilheiro, sem gravata, para a entrevista coletiva e, logo, um encontro com intelectuais no ginásio do Ibirapuera.

Perguntei-lhe sobre os problemas e penúrias internas, sobre as “discordâncias” e prisões. Na era Gorbachev, a ajuda econômica soviética tinha diminuído e Cuba se preparava para a escassez do “período especial”, mas a resposta foi taxativa: não havia nenhum problema de qualquer ordem em nenhum setor, nem existiam presos políticos. E enumerou longamente os progressos e conquistas na educação e na medicina, com que enfrentavam o bloqueio dos EUA. Voz e gestos expressavam um otimismo tal que todos se espantaram com a imprópria pergunta...

Meses antes tinham sido fuzilados o general Arnaldo Ochoa e o coronel Tony la Guardia, comandantes das tropas cubanas que (nos anos 1970) repeliram a invasão de Angola pela racista África do Sul, abrindo caminho ao fim do apartheid. Ochoa (que era tão popular quanto Fidel) foi acusado de permitir que o narcotráfico colombiano reabastecesse em Cuba os aviões para chegar aos EUA, algo que ninguém na pequena ilha faria sem consentimento superior. Nem García Márquez, recém-laureado com o Nobel e morando em Cuba, conseguiu que seu amigo Fidel abrandasse a pena. 

Em 1993, na reunião dos chefes de Estado ibero-americanos na Bahia, o presidente Itamar Franco e o conservador governador Antônio Carlos Magalhães se fascinaram com o que ele dizia.

O romantismo que fez do século 20 um tempo de paixões explica que a pequena ilha tenha provocado tanta admiração e tanto respeito mundo afora. Aqueles jovens que saíram do México e dois anos depois, barbudos, derrotaram um exército convencional e uma ditadura sanguinária eram a versão moderna do pequeno Sansão bíblico contra o gigante Golias. Ou heróis reais de um romance de capa e espada.

Mas o poder é o poder de ter poder e dos cinco comandantes da guerrilha só os irmãos Castro sobreviveram no poder. Primeiro, o aviãozinho de Camilo Cienfuegos desapareceu no mar. Logo, Huber Matos, acusado de “tentar um golpe”, passou 20 anos preso. Depois, Che Guevara (em discordância com o domínio soviético) saiu de Cuba e se imolou na Bolívia.

Fidel foi um daqueles iluminados da História que talvez só os anos (ou nem os anos) escureçam. Mas tornou-se um iluminado que extraviou a própria luz e, na escuridão, confundiu os caminhos e se guiou por um mundo irreal gerado pela fantasia.

Foi vítima da guerra fria. Acreditou na “eterna União Soviética” e assimilou erros e desconfianças do stalinismo, em que “o inimigo é quem pensa diferente”. A grandeza coabitou com o despotismo e ele se transformou também em déspota. Num daqueles “déspotas iluminados”, ou “ilustrados”, que aparecem ao longo da História da humanidade, mas déspota, enfim.

Com ele morre o derradeiro vestígio da guerra fria que, por ironia, Donald Trump talvez queira fazer renascer.

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