O vaivém de Haddad

As idas e vindas do prefeito Fernando Haddad e seus auxiliares na apresentação de seu plano de governo criam a penosa impressão de falta de firmeza e de ideias claras e precisas sobre o que ele deseja e o que pode efetivamente realizar. E isso é absolutamente inaceitável numa cidade das dimensões e da importância de São Paulo - a maior do País e seu principal centro econômico -, que não deve conviver com a incerteza em relação a medidas que são essenciais tanto para a solução de problemas urgentes como para a definição de seu futuro.

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2013 | 02h14

O Plano de Metas apresentado pelo governo deixou de fora obras de apoio viário - duas avenidas paralelas à Marginal do Tietê - constantes do chamado Arco do Futuro, conjunto de medidas que esteve no centro da campanha eleitoral de Haddad. Uma das avenidas, com 8,4 km, iria da Avenida Santos-Dumont à Avenida Aricanduva. Outra, de 17 km, interligaria a Via Dutra à região de Pirituba. O anúncio foi feito durante audiência na Câmara Municipal, pela secretária de Planejamento, Leda Paulani: "O governo não tem recursos para fazer esses projetos".

A repercussão negativa do recuo levou a assessoria de imprensa do prefeito a divulgar nota oficial, poucas horas depois, afirmando, em resumo, que as coisas não eram bem assim, porque aquelas avenidas continuam a integrar o plano, só que incorporadas a outro item, relativo à revisão da Operação Urbana Água Branca e ao projeto de intervenção urbana Arco Tietê. É de esperar que em algum momento o governo municipal perceba a necessidade de ser mais claro a esse respeito, tendo em vista a importância das obras em questão.

Algo semelhante aconteceu com a participação de policiais militares (PMs) da Operação Delegada em patrulhamento noturno em bairros distantes. A secretária Paulani, naquela mesma audiência na Câmara, havia anunciado que a Prefeitura desistira dessa ideia, entre outras razões porque a população acusava os PMs de agir com violência e também porque "segurança é uma questão do Estado". Dias depois, o prefeito voltou atrás e aceitou proposta do secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, de manutenção daquele patrulhamento.

Para contornar a dificuldade de recrutar PMs que servem na capital para esse trabalho, será permitido que policiais das outras cidades da região metropolitana possam participar do patrulhamento noturno dentro da Operação Delegada, ideia que, diga-se de passagem, foi do prefeito. Com isso, parece que deixaram de ter validade os argumentos da secretária Paulani.

Outra questão mal explicada é a da relação entre os recursos disponíveis e as obras constantes do Plano de Metas. Mesmo deixando de lado as avenidas paralelas à Marginal do Tietê - sobre as quais o vaivém da Prefeitura projeta uma sombra -, o que o prefeito promete é muita coisa. Às 100 propostas apresentadas por Haddad em março foram acrescentadas mais 23.

Um conjunto ambicioso, que tem como pontos principais, na área de saúde, a construção de 3 hospitais, 43 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e 30 Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Na área de educação, prometem-se 243 creches e 20 Centros Educacionais Unificados (CEUs). Na área de transportes, planeja-se a criação de 150 km de corredores e outros 150 km de faixas exclusivas para ônibus, além do bilhete único mensal, e na área de habitação, 55 mil novas moradias.

É verdade que nessas duas últimas áreas a Prefeitura contará com a ajuda do governo federal, mas, ainda assim, é muita obra para um governo que, segundo Haddad, anda às voltas com uma situação de penúria financeira. Ele chegou mesmo a dizer que, sem uma renegociação da dívida municipal - que até agora não ocorreu -, a capacidade de investimento da Prefeitura será muito limitada.

De onde então sairão os recursos para tudo isso? Se o que se promete for executado, será ótimo para a população de São Paulo. Mas a improvisação, as hesitações, os avanços e recuos do prefeito deixam muitas dúvidas no ar.

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