O Velho Oeste de Haddad

Talvez o prefeito Fernando Haddad nunca se tenha revelado tão fiel à maneira de pensar e sentir de seu partido, o PT, quanto em entrevista concedida à TV Estadão a respeito dos meios de transporte na capital ou da mobilidade urbana. Apelando para palavras pesadas que contrastam com o ar de bom moço que cultiva, ele se mostrou à altura de seus companheiros, ao tratar os que criticam suas iniciativas naquela área, não como quem assim procede com a intenção de apontar o que consideram erros a serem evitados ou corrigidos, mas como inimigos que querem destruir o que classifica de projeto de modernização da cidade.

O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2015 | 02h06

Numa linguagem mais terra a terra, é a técnica do "nós", os mocinhos, contra "eles", os bandidos, como se estivéssemos no Velho Oeste. "Tem uma campanha, que eu acho sórdida, contra o projeto de modernização da cidade, pelo qual passaram Buenos Aires, Nova York, Frankfurt, São Francisco", disse ele se referindo à oposição entre os transportes individual (salvo bicicleta) e coletivo. Sórdido é algo imundo, repugnante ou, em sentido figurado, indica o emprego de meios baixos para alcançar um fim. Ou o prefeito não prestou bem atenção ao sentido da palavra ou agiu friamente. Nos dois casos, é grave.

Sordidez à parte, a argumentação de Haddad em favor de seus projetos deixa muito a desejar, sem falar em sua mania de grandeza. Cada parte merece comentário. "A gente fica falando do túnel não sei de onde, do viaduto não sei de onde. Está tudo errado. O certo é investir no transporte público e no transporte individual não motorizado", diz ele. E em outro trecho: "Vamos dar marcha à ré na cidade de São Paulo? Vamos voltar a asfaltar a cidade, fazer faixa de rolamento para carro, acabar com a área verde da Marginal?".

Em primeiro lugar, salta aos olhos que sem túneis e viadutos - os existentes e outros que se fizerem necessários - e obras como a de ampliação da Marginal do Tietê, também criticada duramente, São Paulo para. O mesmo vale para novas ruas asfaltadas. O prefeito, que gosta de citar o exemplo de grandes cidades de países desenvolvidos, esqueceu-se de que nelas tudo isso continua a ser feito, quando preciso, porque lá como cá existe e continuará existindo um bom número de pessoas que preferem usar carro e que também precisam ser atendidas. E que isso não exclui investimentos em transporte público, ao contrário, conjuga-se com eles.

Opor o transporte público, cuja prioridade não se discute, ao transporte individual é uma esperteza para enganar os incautos, não é coisa séria. Só o transporte coletivo de boa qualidade, rápido e confortável, leva a maior parte dos proprietários de carros a não usá-los para ir ao trabalho, às escolas ou às compras, como ocorre em Nova York, Londres, Berlim, Paris, Tóquio e outras cidades.

O que tem feito Haddad para ajudar São Paulo a ser como elas, afora seus polêmicos e estabanados projetos - se se pode chamá-los assim - de faixas exclusivas para ônibus e ciclovias? Faixas que, além de não serem a panaceia alardeada, em breve terão problemas com o piso, se forem intensamente utilizadas, já que não receberam o reforço indispensável. Quanto às ciclovias e às críticas de que estão quase sempre vazias, ele bem que poderia ter se poupado do ridículo desse argumento: "Tem calçada que não é usada. Tem rua que não é usada". Só faltava essa.

Haddad falou também em investir em Metrô. Deveria estar se referindo ao governo do Estado, que tem arcado com quase tudo que é investido em sua expansão, pois a colaboração da Prefeitura é muito pequena, quando existe.

Outro aspecto preocupante na entrevista são os sinais de que Haddad se dá uma importância desmedida: "O que me espanta é que pessoas esclarecidas, que viajam para o exterior, não compreendem que temos que mudar o paradigma. A cidade não vai funcionar mais como funcionava antigamente. Esse mundo acabou". Com o que, então, Haddad pensa mesmo que, com seu pífio desempenho, está fazendo uma revolução na cidade. Durma-se com um barulho desse.

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