O verão da política

Um desertor americano que deixou o Vietnã e se refugiou na Suécia costumava dizer, nas tardes geladas de inverno: "Não está acontecendo nada". Para sua experiência guerreira cheia de emboscadas, bombardeios e drogas, a Suécia era um deserto branco onde as pessoas falavam baixo e a noite caia às 2 da tarde.

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2011 | 00h00

Posso estar sendo vítima do mesmo erro de perspectiva ao afirmar que na política brasileira, nestas férias, não aconteceu nada. É que passei alguns anos no jornalismo com a missão de preparar a pauta. Todas as manhãs, bem cedo, alinhava as notícias que deveriam ser cobertas e também as que precisavam de mais explicações, novos ângulos, um desdobramento adequado à sua importância.

Aconteceram, como não poderia deixar de ser, muitas coisas neste verão. Mas não consigo localizar a resposta das forças políticas brasileiras a tantos fatos novos. Parece que o governo decidiu trabalhar muito discretamente, como se isso fosse realmente possível; a oposição, por seu lado, utilizou as férias para se dilacerar em lutas internas pelo controle de siglas, distantes do anseio das ruas.

Por economia, menciono apenas alguns casos. A tragédia na serra fluminense, com 855 mortos e 500 desaparecidos, passou em branco no universo político. Houve apenas uma reunião no Congresso, onde foi tema foi tratado com rapidez. No Estado do Rio foi criada uma comissão só de deputados da serra, para evitar esforço de deslocamento. Nenhum relatório, nenhuma ideia nova. Restou apenas o consolo nas palavras do ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante: em 2014 o sistema de defesa civil estará implantado.

Sempre se pode argumentar que foram férias atípicas. Muitos deputados estavam para deixar o cargo e, portanto, sem força para influenciar; muitos outros acabam de chegar e ainda não tinham o mandato nas mãos. Isso é verdade, mas suprime um dado importante: mais da metade dos congressistas não está chegando nem saiu, apenas continua.

Também passou em branco na província da política a licença ambiental dada à Usina de Belo Monte, no Xingu. Ela provocou a queda de dirigentes do Ibama e suscitou ação do Ministério Público. Não houve repercussão na política, nem no que diz respeito à dimensão ambiental, tampouco se debateu o financiamento pelo BNDES. E ficaram na estrada algumas insinuações, do ano passado, sobre tráfico de influência nos negócios de Belo Monte.

Alguém pode argumentar: são exemplos que não valem para Furnas, que subiu ao topo do noticiário exatamente por inquietação na área política. Acontece que as maquinações que alçaram Furnas às manchetes pertencem a uma esfera infrapolítica, luta por cargos nas estatais e consequente uso da empresa para financiar campanhas. Digamos que os mais experientes na oposição aleguem que é sábio deixar que partidos do governo troquem pesadas acusações em público: o desgaste ficará apenas com eles. Mas as acusações, em muitos casos, são confirmadas por funcionários de carreira e envolvem desvio de dinheiro público, via compras inexplicáveis. A grande limitação de um debate somente entre partidos do governo é o objetivo de apenas conquistar espaço. Uma vez vitoriosa, a corrente que denunciou esquecerá rapidamente os milhões desviados porque não eram eles que a moviam, mas sim a ocupação de mais um feudo.

Se transitamos para o campo da economia, a sensação é de que nada aconteceu. No limiar da exploração do pré-sal, o incêndio numa plataforma da Petrobrás, a Cherne, passou em branco, assim como caem no vazio as constantes denúncias dos petroleiros sobre queda nas condições de trabalho e segurança.

Vamos supor que petróleo seja secundário e buscar algo mais nobre na economia: a contradição entre o FMI e o governo brasileiro sobre as metas do superávit primário. Um relatório do FMI diz que as contas brasileiras estão se deteriorando; o governo diz que foi um conservador que escreveu o texto, as contas vão muito bem. Era de esperar que houvesse um debate nacional.

Era de esperar também que o relatório da Fiesp anunciando perda R$ 17 bilhões e 46 mil empregos na indústria desencadeasse um debate com potencial de envolver também a política externa. Nenhuma repercussão entre os políticos.

Argumento de peso: a imprensa noticiou amplamente esses fatos e outros que não foram mencionados aqui. A crise no Oriente Médio é um deles, mas para que mencioná-lo, se o mundo é sentido tão distante? Acontece que a imprensa tem lógica própria, não é sua missão conduzir o País. As equipes de reportagem vão levantando os acampamentos na serra, os hospitais são desmontados: a população em breve estará só, diante de imensas dificuldades. Na cobertura cotidiana os fatos cintilam e desaparecem, num interminável caleidoscópio.

Os políticos simplesmente abdicaram de dar um sentido a essa trama, embora seja preciso reconhecer com humildade que, mesmo trazendo-a ao debate nacional, nem sempre se acha a melhor saída. Mas é preciso sempre tentar.

A política brasileira ofereceu suas entranhas, quando precisávamos de coração e mente. Aliados do governo disputam cargos na estatais com investimentos milionários. Guerra de dossiês, ameaça de contar o que os adversários fizeram no verão passado, troca de mensagens na rede social marcaram sua presença.

Na oposição, os dois principais partidos discutem quem será o novo presidente, quem tentou dar um golpe eleitoral, quem falsificou regimentos internos.

Um efeito colateral desse imenso vazio foram as denúncias sobre aposentadoria de ex-governadores. É um tema antigo, que sempre figurou na listas dos debates impossíveis. Ele estava embutido no problema jamais resolvido do teto salarial de funcionários públicos. Mais uma vez, surgiu pela iniciativa da imprensa e, mais uma vez, morreu no universo da política.

Tudo isso é paz, tudo isso traz uma calma de verão. E o barquinho vai. Para onde?

JORNALISTA

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