O vermelhão e a agenda

Cuidar do comércio exterior será um dos principais desafios para o governo a partir do começo do ano - uma tarefa essencial para ajeitar as contas externas, já no vermelho, e tornar o País menos vulnerável a choques internacionais. Será preciso ganhar poder de competição, especialmente na indústria, e fazer a exportação voltar a crescer. A redução do saldo comercial foi a grande causa, nos últimos anos, do aumento do déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. O Brasil deve chegar ao fim de 2014 com um déficit de US$ 86,2 bilhões nessa conta, segundo projeção do Banco Central (BC). Esse rombo equivalerá a 3,94% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período. A melhora prevista para o próximo ano é pouco significativa em termos práticos. A previsão é de um déficit de US$ 83,5 bilhões, ou 3,8% do PIB. Nos dois anos, o investimento estrangeiro direto será insuficiente para cobrir o rombo. Para 2014, está estimado um ingresso líquido de US$ 63 bilhões. Para 2015, a expectativa é de US$ 65 bilhões. A diferença será coberta com recursos menos produtivos e mais sujeitos à especulação.

O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2014 | 02h04

A conta corrente, um resumo das transações com o exterior, é formada pela soma da balança comercial, da conta de serviços (como viagens, transportes e aluguel de equipamentos), do movimento de rendas (onde entram juros e lucros) e das transferências unilaterais (remessas de trabalhadores no exterior, por exemplo).

Tradicionalmente deficitário em serviços e rendas, o Brasil sempre dependeu e continua a depender do saldo comercial para fechar a conta corrente ou, pelo menos, para manter o déficit em nível seguro. Mas o comércio tem produzido resultados muito fracos. As vendas foram menores neste ano do que em 2013 e as importações, sustentadas principalmente pela demanda de consumo, têm ocupado espaço crescente no mercado interno.

Em 2013, o saldo comercial ficou em modestos US$ 2,4 bilhões. Neste ano, até novembro, houve um déficit de US$ 2,35 bilhões. No mês passado, o BC ainda calculava para o ano um superávit de US$ 3 bilhões, mas essa estimativa acaba de ser alterada para um saldo negativo de US$ 2,5 bilhões. Para 2015, a previsão é de um saldo positivo de US$ 6 bilhões. Ainda será um resultado modesto, mas o pior aspecto das projeções é outro. Pelas contas do BC, o valor exportado no próximo ano, de US$ 234 bilhões, será pouco maior que o esperado para 2014, de US$ 227,5 bilhões, mas inferior ao de 2013, de US$ 242 bilhões. A previsão de um saldo maior só é possível porque o valor importado, de US$ 228 bilhões, será menor que o deste ano, de US$ 230 bilhões.

Espera-se, portanto, uma nova redução da corrente de comércio, a soma de compras e vendas no mercado internacional. A corrente estimada para este ano, de US$ 457,5 bilhões, é menor que a de 2013, de US$ 481,6 bilhões. Isso indica uma interação mais limitada com o mercado global e, portanto, uma grave perda de oportunidades de criação de negócios e de empregos produtivos.

Defensores do protecionismo poderiam ver um lado positivo nesse menor intercâmbio. Mas seria uma ilusão, porque nem o aumento de barreiras, nos últimos anos, impediu a presença crescente, no País, de produtos importados, como tem mostrado a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Um pequeno déficit, financiado com poupança estrangeira, pode contribuir para um crescimento econômico mais rápido. Mas isso ocorre somente quando o desequilíbrio é causado por uma expansão do investimento. Não tem sido o caso do Brasil nos últimos anos. O País tem investido pouco, e a proporção entre investimento e PIB diminuiu nos últimos quatro anos. O excesso de demanda tem resultado do aumento do consumo privado e do custeio governamental.

O descompasso entre essa demanda e a oferta interna se tem refletido na inflação muito acima da meta anual de 4,5%. O crescente buraco na conta corrente sintetiza, de certa forma, os grandes desajustes brasileiros e, portanto, os pontos principais da agenda da nova equipe econômica.

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