O viaduto é do Chá

Como se não tivessem nada mais importante para fazer, os vereadores de São Paulo estão se mobilizando para mudar o nome de um dos mais tradicionais símbolos da cidade, o Viaduto do Chá. A título de prestar uma homenagem a Mário Covas, que foi prefeito paulistano entre 1983 e 1985, a grande maioria dos vereadores está prestes a dar sua contribuição para a violação de uma parte relevante da história da capital.

O Estado de S.Paulo

06 Abril 2013 | 02h07

O Viaduto do Chá, erguido primeiramente com estrutura metálica importada da Alemanha, foi o primeiro viaduto da cidade, inaugurado em novembro de 1892, e deve seu nome à plantação de chá que havia nas redondezas, numa São Paulo de pouco mais de 65 mil habitantes. Logo se transformaria em passagem obrigatória para os paulistanos que queriam ir às lojas do centro e, mais tarde, ao Teatro Municipal, tornando-se um marco da veloz modernização da cidade no início do século 20. Adicionar o nome de um político contemporâneo a um monumento com esse significado, que nada tem a ver com ele, é um despropósito evidente, pois distorce a memória que a obra simboliza.

Não é de hoje que os políticos encontram pretextos para enaltecer personalidades à custa de vias públicas já batizadas. Quando a república substituiu a monarquia, muitas ruas do centro de São Paulo foram rebatizadas para apagar os rastros do regime que caía - e então nomes republicanos, como Marechal Deodoro, Benjamin Constant e Quintino Bocaiuva, passaram a constar das placas nos logradouros, antes preenchidas com nomes como "da Imperatriz", "do Imperador" e "do Príncipe". Mas houve grande desgosto popular quando decidiram mudar o nome da Rua Direita para Rua Floriano Peixoto. O povo venceu o embate, a Rua Direita se manteve como tal, e o marechal teve de se mudar para outro lugar.

Mais recentemente, em 2002, a Câmara, instigada pela prefeita Marta Suplicy, aprovou a mudança do nome do Túnel 9 de Julho para "Túnel 9 de Julho Daher Elias Cutait". Não era uma alteração qualquer: a obra, inaugurada em 1938, recebeu seu nome em 1941, quando o ditador Getúlio Vargas inaugurou a Avenida 9 de Julho. Tratava-se de uma homenagem, prestada pelo então prefeito, Prestes Maia, aos paulistas que haviam tombado na Revolução Constitucionalista de 1932. Nem Vargas, contra quem os revolucionários haviam se insurgido, ousou sugerir que o nome fosse alterado quando veio cortar a fita.

Marta argumentou que a denominação "9 de Julho" não era oficial e, portanto, cabia complementá-la com o nome do médico Daher Elias Cutait. Esse tipo de raciocínio tortuoso, que revela mais os interesses pessoais da então prefeita do que algum propósito nobre, não está à altura dos méritos de Cutait, um dos fundadores do Hospital Sírio-Libanês. Cutait certamente merecia ser homenageado, mas não em detrimento da preservação da memória de São Paulo.

Do mesmo modo, não se discute que Mário Covas merece louvor público. No entanto, sua relevância já está devidamente registrada em diversas obras, entre as quais o Rodoanel, o maior hospital da região do ABC e uma praça na Avenida Paulista. Até a família do ex-governador acha um exagero rebatizar o Viaduto do Chá com o nome do tucano. Nada disso parece constranger os nobres vereadores. Originalmente de autoria de Wadih Mutran (PP), o projeto já conta com o apoio de 45 dos 55 parlamentares, inclusive 8 dos 12 vereadores do PT. Embora reconheçam que Covas era "uma pessoa importante na história política nacional", sabe-se que os petistas decidiram apoiar o projeto para não atrasar a pauta de votações de interesse do prefeito Fernando Haddad. Ou seja: a modificação do nome do Viaduto do Chá resulta de puro cálculo político.

Assim sendo, a absurda ideia de rebatizar esse cartão-postal de São Paulo, chamando-o de "Viaduto do Chá Prefeito Mário Covas", nada mais é do que um lance de oportunismo, tanto de governistas quanto da oposição. Seja qual for o desfecho deste episódio, para os paulistanos, o Viaduto do Chá continuará a ser, simplesmente, Viaduto do Chá.

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