O ''Zero e o Infinito'' em Cuba

Os jornais de domingo trouxeram diversas análises sobre o provável significado da reforma sem precedentes na cúpula do governo cubano, consumada no início da semana pelo presidente Raúl Castro. Pouco depois de completar um ano no cargo, ele destituiu 12 membros do seu primeiro escalão, notadamente o secretário executivo do Conselho de Ministros, Carlos Lage, e o ministro das Relações Exteriores, Felipe Pérez Roque, leais seguidores de Fidel e incluídos entre os seus possíveis sucessores, quando ele renunciou. A imprensa destacou a "militarização" do regime, com a instalação de uma dezena de oficiais na alta hierarquia de Havana. Eles teriam sido chamados a reproduzir no governo os padrões de gestão adotados nas estatais controladas pelas Forças Armadas. A intenção é de aprumar a administração da ainda incipiente, embora já desmantelada, economia cubana - depois de 50 anos de regime que se diz socialista - e formar um círculo protetor em torno de Raúl contra eventuais efeitos políticos, em Cuba, da crise internacional.Mereceram poucas reflexões, no entanto, os fatos que se seguiram à reestruturação do gabinete - o inesperado artigo de Fidel condenando com a costumeira estridência "os dois ministros mencionados como os mais afetados pela reforma" (Lage e Pérez Roque) e as cartas quase idênticas mediante as quais, dois dias depois, eles comunicaram a sua renúncia aos cargos que ainda ocupavam no aparelho de Estado e no Partido Comunista, admitindo, abjetamente, os misteriosos "erros" que teriam feito a sua desgraça. Com isso, a ditadura cubana tornou a escancarar, depois de anos em estado catatônico, a sua natureza profunda, marcada por uma ideologia inabalavelmente fiel ao stalinismo soviético. Passadas sete décadas dos infames Processos de Moscou que permitiram a Josef Stalin exterminar inimigos imaginários na elite bolchevique, eis que o mesmo padrão reaparece na desafortunada ilha castrista, com a única diferença de que, neste caso, os expurgados continuam vivos, carregando a humilhação da farsa de que aceitaram fazer parte "para continuar servindo à Revolução".O desenlace foi até certo ponto surpreendente. O anúncio oficial da reforma dizia que "os companheiros" Lage e Pérez Roque foram "liberados" de suas funções. O eufemismo era patente, mas indicava um respeito residual pelos demitidos, na ausência de qualquer acusação a eles. No dia seguinte, porém, o velho Fidel deixou boquiabertos os cubanos ao escrever na internet que "o mel do poder" despertou nos seus antigos apadrinhados "ambições que os conduziram a um papel indigno", insinuando que serviam ou tinham ligações com "o inimigo externo" que "encheu-se de esperanças com eles". Emergia no Caribe uma versão cucaracha das diatribes do inquisidor supremo dos tribunais de Moscou, Andrei Vichinski, que acusava os melhores entre os revolucionários de 1917 de conspirar até com a Alemanha de Hitler para eliminar o camarada Stalin e pôr abaixo o Estado dos sovietes. As provas viriam dos próprios réus, em confissões arrancadas sob tortura na prisão da Lubyanka e afinal assumidas por eles, não para se salvar, pois se sabiam condenados, mas para "continuar servindo à Revolução" - como reconstitui o escritor Arthur Koestler, no magistral romance O Zero e o Infinito (Darkness at Noon).Importa menos saber por que em 24 horas Lage e Pérez Roque passaram de companheiros a traidores do que constatar a autodegradação de dois dos mais bem-sucedidos quadros do fidelismo - um, de 57 anos, o artífice das reformas econômicas da década de 1990 em Cuba; outro, de 43 anos, o comunista linha-dura que ocupou a chancelaria do país durante quase dez anos. Nas suas cartas, praticamente com as mesmas palavras, assumem "total responsabilidade" por seja lá o que lhes tenha sido atribuído numa reunião do Birô Político a que fazem vaga referência. O aviltamento se completa com a promessa comum de fidelidade ao partido, a Fidel e "a você", o "querido Raúl", como a ele se dirige o destituído ministro do Exterior. Na gerontocracia dos irmãos Castro não há nada a ser reformado nem na política nem na economia. Porque não há vida política nem moderna economia. É preciso aguardar a morte do último deles para ver o que virá depois.

, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2009 | 00h00

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