Obama avança sobre os bancos

Com o empenho pessoal do presidente Barack Obama e um raro apoio bipartidário, os Estados Unidos poderão ter a primeira grande reforma financeira depois da crise global iniciada em 2007 e agravada a partir de 2008. "Juntem-se a nós, em vez de combater nosso esforço", disse o presidente em pronunciamento dirigido não ao público em geral, já indignado com as façanhas dos banqueiros, mas à comunidade de Wall Street. A reforma, segundo ele, atende não só aos mais altos interesses nacionais, mas também aos do setor financeiro. Os banqueiros do Brasil dificilmente poderiam contestar essa afirmação. Afinal, seus bancos ficaram fora da farra dos créditos subprime e escaparam das piores consequências do estouro da bolha. Não precisaram, para isso, exercitar grandes virtudes. Já estavam sujeitos a disciplinas e limites muito mais severos que seus colegas americanos e europeus.

, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

O discurso de Obama não elimina a oposição às mudanças em debate no Congresso, mas abre uma nova perspectiva para o debate. Afinal, a maioria dos bancos e de outras instituições de crédito ficou fora dos principais programas de auxílio, cortou custos e operou mais normalmente que os gigantes do setor nos últimos dois anos. Todos poderiam ter sido envolvidos na grande lambança, arrastados pelos parceiros maiores, mas a maior parte deles não teria força suficiente para impor um novo jogo ao mercado.

Uma pesquisa conduzida pela American University e pelo jornal USA Today comparou o comportamento dos bancos incluídos no Tarp (Programa de Alívio de Ativos Problemáticos) com o das demais instituições.

Nos bancos ajudados pelo governo, o saldo dos empréstimos a empresas e pessoas físicas diminuiu 9,1% nos 12 meses terminados em 30 de setembro de 2009. Nos outros, a redução foi de 6,2%. Nos primeiros, o salário médio subiu 9,4% no primeiro ano do programa. Nos demais, apenas 1,8%. Nos incluídos no Tarp, o número de agências cresceu 2,7%. Os outros cortaram 1,2%.

Quem escapou da bolha e ficou longe do generoso auxílio do Tesouro continuou trabalhando normalmente e financiando empresas e consumidores, apesar dos problemas e da necessidade de cortar custos. Quem participou da farra continuou na boa vida ou, pelo menos, numa vida melhor que a dos outros.

O público americano sabe o suficiente para manter um alto grau de indignação com os gigantes de Wall Street mesmo depois de superada a pior fase da crise. Diante disso, dificilmente poderia haver, no Congresso, uma oposição à mudança financeira tão forte e tão ampla quanto foi a resistência à reforma dos serviços de saúde. Os lobbies têm trabalhado, mas a favor de uma causa muito mais difícil de vender à opinião pública.

A impopularidade dos banqueiros, especialmente dos mais poderosos, certamente explica a maior receptividade da oposição às propostas de enquadramento mais severo do setor financeiro. Pode haver divergências quanto a detalhes, mas o apoio republicano ao desenho geral da reforma parecia garantido na quarta-feira.

Uma das novidades da semana foi a aprovação, pela Comissão de Agricultura do Senado, da proposta de um novo esquema de supervisão dos mercados de derivativos. Se convertida em lei, poderá limitar a atuação das grandes instituições em operações ligadas a commodities agrícolas, cortando uma importante fonte de lucros para os bancos. A ideia foi apresentada pela presidente da comissão, a democrata Blanche Lincoln, e apoiada pelo influente republicano Charles Grassley, um dos principais defensores dos interesses dos fazendeiros.

A reforma financeira americana deve impor exigências maiores de capital e de liquidez aos bancos, limitar o tamanho das instituições, forçar maior transparência nas operações, aumentar a proteção aos consumidores e, se der tudo certo, eliminar o velho problema dos bancos grandes demais para quebrar. São, de modo geral, objetivos aceitos no mundo todo. Mas falta ver se a lei americana será inteiramente compatível com as mudanças em estudo nas instituições multilaterais e destinadas a uma reforma global.

Essa preocupação foi manifestada na quinta-feira pelo diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn.

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