Obama beneficia imigrantes

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tomou uma atitude correta ao baixar um decreto que dá a cerca de 5 milhões de imigrantes ilegais a chance de evitar a deportação e de obter os papéis necessários para conseguir emprego. São pais estrangeiros, sem documentos, cujos filhos nasceram no país e são, portanto, americanos. A mera possibilidade da dissolução dessas famílias justifica a decisão de Obama.

O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2014 | 02h03

Deve-se esperar dura e sistemática reação da oposição republicana ao decreto, especialmente revigorada depois da vitória nas últimas eleições legislativas. Os primeiros sinais de que a hostilidade será feroz partiram do presidente da Câmara, o deputado republicano John Boehner, para quem a atitude de Obama "danifica a própria presidência". Em seguida, o líder republicano na Câmara, Kevin McCarthy, disse que o decreto era um "descarado abuso de poder".

Ao longo de seu governo, Obama fez o que esteve ao seu alcance para convencer os republicanos a aprovar uma reforma do sistema de imigração. Nesse processo, tornou-se o presidente americano recordista em deportações - chegaram a 400 mil por ano -, na expectativa de que essa firmeza se traduzisse em aval da Câmara para suas propostas. Mesmo assim, a direita republicana, interessada em fazer Obama sangrar, recusou-lhe qualquer gesto de boa vontade - um projeto de reforma da imigração aprovado no Senado com apoio bipartidário estancou na Câmara graças ao boicote da maioria republicana.

Foi em razão desse impasse que Obama decidiu impor, por decreto, seu plano de imigração. Ao anunciá-lo, em pronunciamento na TV, o presidente deixou claro que decidiu agir unilateralmente porque o Congresso se recusava a resolver a questão. Ele disse que seu decreto está de acordo com a lei, lembrou que presidentes republicanos já fizeram o mesmo - ainda que em escala menor - e lançou um desafio aos deputados: "Àqueles membros do Congresso que questionam a minha autoridade para fazer com que nosso sistema de imigração funcione melhor, ou questionam se é sensato que eu faça o que o Congresso deixou de fazer, tenho uma resposta: aprovem uma lei".

Mesmo com o tom desafiador, Obama tratou de explicar que seu decreto não representava uma anistia, tampouco leniência em relação aos imigrantes clandestinos em geral, e sim uma solução provisória para os imigrantes que se enquadram nas exigências legais - estar no país há pelo menos cinco anos e ter filhos com cidadania americana. Embora tenha convidado esses imigrantes a "sair das sombras", Obama esclareceu que somente o Congresso pode dar a essas pessoas o direito de permanecer nos Estados Unidos e de receber benefícios como qualquer americano.

Os imigrantes contemplados pelo decreto terão de ir a uma delegacia de imigração e se entregar às autoridades, reconhecendo sua situação ilegal. Em seguida, serão fichados - deixando impressões digitais, endereço residencial e outras informações pessoais. Tudo em troca de evitar apenas temporariamente a deportação - o que pode fazer com que muitos dos qualificados não se apresentem, com receio de que a próxima legislatura anule os efeitos do decreto.

Enquanto isso, é provável que a máquina de deportações do governo Obama funcione com vigor ainda maior, uma vez que o presidente não pretende ser acusado de leniência com imigrantes ilegais que representam risco à segurança dos americanos. Em seu discurso, no entanto, Obama enfatizou que não se pode ignorar o papel dos imigrantes na trajetória de sucesso dos Estados Unidos e que esse tema não pode ser tratado pelos políticos como qualquer outro.

"Sempre fomos e sempre seremos uma nação de imigrantes", disse o presidente, em emotivo pronunciamento. E ele provocou: "Somos uma nação que tolera a hipocrisia de um sistema no qual trabalhadores que colhem nossas frutas e fazem nossas camas jamais têm a chance de se acertar com a lei? Ou somos uma nação que lhes dá a chance de viver em paz, assumir responsabilidades e dar a seus filhos um futuro melhor?".

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