Obama fica nas palavras

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, diz que o grande desafio para a paz no Oriente Médio é conseguir um acordo que atenda às legítimas aspirações dos palestinos por um Estado e garanta a segurança de Israel. Trata-se de uma platitude. O mais grave é que Obama parece ter desistido de investir o imenso capital político americano na busca desse difícil equilíbrio. Tornou-se refém do fracasso de seu engajamento no primeiro mandato para ressuscitar o que um dia se chamou "processo de paz". Ele nem sequer conseguiu que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu detivesse a expansão das colônias judaicas nos territórios ocupados, compreensível exigência palestina para a retomada das negociações. Israel avançou sobre áreas cruciais para a viabilidade de um futuro Estado palestino, retalhando-as de tal maneira a justificar a certeza de que essa é efetivamente a sua meta.

O Estado de S.Paulo

22 Março 2013 | 02h09

Obama começou a sua primeira visita a Israel falando da "aliança eterna" dos EUA com o Estado judeu. Ostentando humildade, disse que a sua viagem se destinava a "ouvir", para tentar entender como o seu país poderia "desempenhar um papel construtivo" na região. Decerto não será esfregando sal nas feridas palestinas, como fez ao deixar claro que a aliança eterna com Israel, de quem a América "se orgulha de ser o mais forte e melhor amigo", prevalece sobre a solução equânime do conflito com os palestinos. O presidente afirmou ainda que a parceria com Israel "é fundamental para a segurança nacional dos Estados Unidos". O que significa que hoje, para Washington, é muito mais importante a questão do ingresso do Irã no clube atômico e a guerra civil na Síria do que o advento de uma Palestina soberana - o que representaria um triunfo de proporções históricas sobre os inimigos dos EUA na esfera árabe-muçulmana.

Como se sabe, Netanyahu, mas não toda a cúpula militar e dos serviços israelenses de segurança, descrê da diplomacia e até mesmo das sanções da ONU para deter a nuclearização do país persa. No ano passado, ele esteve próximo de ordenar um ataque às instalações do programa iraniano. Foi dissuadido da aventura que coincidiria com a sucessão presidencial americana, mas não abandonou a ideia. Em Israel, Obama se mostrou solidário com o primeiro-ministro, ao afirmar que "cada país tem de tomar suas próprias decisões quando se trata de um tema da importância de uma ação militar, e a situação israelense é diferente da americana". Em relação à Síria, a preocupação do governo de Jerusalém é com o acesso do movimento radical Hezbollah, sediado no Líbano, aos arsenais de armas químicas do regime de Damasco apoiado pelo Irã. Elas podem também cair em mãos dos grupos derivados da Al-Qaeda que se incorporaram ao levante contra o ditador Bashar al-Assad.

Mas a questão palestina não vai desaparecer só porque Israel olha para os outros lados, enquanto Netanyahu faz expressão corporal de defender o princípio "de dois Estados para dois povos". O governo que ele acabou de formar inclui um influente ministro, Naftali Bennett, que diz com todas as letras que o Estado palestino "simplesmente não vai existir". Ele prega a anexação de 61% da Cisjordânia, onde vivem 50 mil palestinos. Se quiserem, tornar-se-ão cidadãos de Israel. Os demais 2,6 milhões de palestinos dos territórios ocupados teriam "plena autonomia" municipal - para decidir, como exemplificou sem corar, o sistema de coleta de lixo nas suas localidades. Nenhum assentamento judaico seria removido. Os seus moradores somam 500 mil pessoas. Em Israel não é segredo que Netanyahu quer dobrar de tamanho essa população. O seu partido, Likud, nunca aceitou formalmente o esquema dos dois Estados. É a imagem espelhada do Hamas que controla a Faixa de Gaza e se recusa a aceitar a existência de Israel.

Os Estados Unidos são a única força no mundo capaz de levar Israel a desistir de reerguer na Cisjordânia - em regime de apartheid - a Judeia e Samaria dos tempos bíblicos. Mas não o fará apenas com críticas, ainda que fortes, à colonização israelense e o endosso retórico ao Estado palestino, como nas palavras de Obama, ontem, diante do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Isso não faz nem cócegas na direita israelense.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.