Obama perde o 'plebiscito'

Irritado com a inclinação de numerosos candidatos de seu partido às eleições de meio de mandato de se dissociar de sua figura, o presidente democrata dos Estados Unidos, Barack Obama, teve a infeliz ideia de dizer em público que o seu nome podia não estar nas cédulas, mas as suas políticas, sim. Foi a involuntária autorização de que os republicanos precisavam para identificar os rivais nas disputas para a renovação de 36 das 100 cadeiras do Senado, de todas as 435 da Câmara dos Representantes e também de 36 dos 50 governos estaduais com uma administração federal reprovada pela maioria e, mais ainda, com o titular da Casa Branca apoiado por menos da metade da população. Apostando pesadamente no descontentamento difuso com a situação do país e as perspectivas de curto prazo - 80% dos americanos se declaram preocupados com os rumos da economia em 2015 -, o comando republicano decidiu, e conseguiu, transformar a votação de anteontem em um plebiscito sobre a gestão Obama.

O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2014 | 02h05

O resultado foi uma derrota devastadora para o presidente. Numa goleada para além das expectativas, a oposição não apenas manteve a sua hegemonia na esfera estadual, como ampliou a vantagem obtida em 2010 na Câmara - e, principalmente, assumiu o controle do Senado pela primeira vez desde 2006, com uma folga sem paralelo desde a 2.ª Guerra Mundial. Os historiadores lembram que essa tende a ser a regra: a contar de 1934, só em duas ocasiões o presidente levou a melhor nesse gênero de eleição - em 1998, na América de vento em popa de Bill Clinton, e quatro anos depois, quando George W. Bush batia recordes de popularidade por ter invadido o Afeganistão em represália aos atentados de 11 de setembro de 2001. Mas isso não ameniza a intensidade do repúdio que acaba de atingir em cheio Obama, apenas dois anos depois da conquista do segundo mandato.

Convergiu para ele a insatisfação geral com "Washington" - como o país designa, pejorativamente, a classe política. Para ter ideia desse estado de espírito - que está longe de ser uma peculiaridade dos EUA, onde os presidentes se elegem, em geral. com o voto de metade da metade dos cidadãos aptos a votar -, também 25% dos eleitores que sufragaram na terça-feira candidatos republicanos confessaram não morrer de amores pelo partido; entre os eleitores democratas, os descontentes se limitaram a 12%. Para os dirigentes da oposição, tanto faz. Eles demonstraram um profissionalismo incomum na história recente do partido. Primeiro, para se livrar do estigma de fundamentalistas, barraram os candidatos do Tea Party, substituídos por nomes aceitáveis para o eleitorado conservador. Segundo, tendo obstruído no Capitólio as principais iniciativas de Obama, como as leis de emigração, controle de armas e salário mínimo, tiveram o desplante de chamá-lo de inerte, omisso.

Funcionou. Para cada dois eleitores que escolheram democratas para expressar apoio a Obama, três votaram em republicanos para externar a sua aversão a ele. Para piorar, o seu eleitorado por excelência - os negros, os jovens e as mulheres - ficou em casa em maior proporção do que os votantes republicanos típicos, brancos e de mais idade. Ou porque não era uma eleição presidencial ou por não se dar conta de que a prioridade de um Congresso republicano será desfigurar o maior feito social de Obama, o programa de saúde pública. A abstenção foi também um revide ao descumprimento da promessa do presidente de regularizar a situação dos mais de 10 milhões de imigrantes ilegais - que pagam impostos quando arrumam trabalho. O desemprego, por sinal, caiu para 5,9%, com a economia crescendo à taxa anual de 3,5%. Mas os salários estão aplastados.

Isso explica o que ocorreu, sintomaticamente, no reduto democrata da Georgia, onde 32% dos eleitores são negros. Dava-se como certo que nenhum dos candidatos ao Senado alcançaria a maioria absoluta exigida no Estado, o que levaria o confronto ao segundo turno. Contadas as cédulas, viu-se que o republicano recebeu 53% dos votos, 8 pontos a mais do que o rival democrata.

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