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OPINIÃO: Um vice para virar o jogo

Mitt Romney fez uma aposta que parece desmentir a falta de coragem política que lhe atribuem

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2012 | 03h04

WASHINGTON - Mitt Romney, o candidato republicano à Casa Branca nas eleições de novembro, fez uma aposta que parece desmentir a falta de coragem política que lhe atribuem. Ao escolher como companheiro de chapa um conservador radical, o deputado Paul Ryan, foi como se dissesse que a maioria do eleitorado tem ou pode ser levada a ter posições semelhantes à do movimento extremista Tea Party - que prega a erradicação do Estado como propulsor da economia e moderador das desigualdades sociais.

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Se as urnas lhe derem razão, a direita verá consagrado o seu principal projeto destes quatro últimos anos: fazer do "socialista" Barack Obama presidente de um mandato só, um acidente de percurso na jornada dos EUA ao encontro do seu credo primordial - cada um por si e Deus por todos.

Mesmo na Câmara dos Representantes de ampla maioria republicana, onde está há 14 dos seus 42 anos, Ryan tem poucos rivais como inimigo jurado da intervenção estatal. Cortes profundos no gasto público e no funcionalismo, menos impostos para os mais ricos - eis, em essência, o que marca as iniciativas do representante de Wisconsin como presidente da Comissão de Orçamento. No ano passado, ele conseguiu impor metas de contenção de despesas e extinção de benefícios fiscais a partir de 2013, que - não fosse um acordo de emergência com a Casa Branca - equivaleriam a 4% do PIB nacional. Romney, filho de um expoente da então majoritária ala moderada do Partido Republicano e governador do Estado progressista de Massachusetts - onde implantou o sistema de saúde que serviria de matriz para o de Obama -, se declarou "maravilhado" com o radicalismo de Ryan.

Dívida pública estratosférica, rebaixamento dos títulos do Tesouro, crescimento capenga, crise de emprego, perda de mercados - e a maior taxa de mortalidade infantil do Primeiro Mundo - são os traços assustadores da realidade americana desde a crise de 2008. Retratam o fracasso de Obama, para o qual o Congresso republicano contribuiu clamorosamente, em soerguer o país. O candidato que se elegeu sob o slogan Yes, we can - dando como garantia a sua trajetória única - não conseguiu restituir à economia o viço perdido. A frustração das forças sociais que galvanizaram a campanha do futuro presidente se traduz numa frase: "Washington mudou mais Obama do que Obama mudou Washington". Mas até sacudir o pó do noticiário eleitoral, com a escolha de Ryan, Romney não animava nem sequer os seus correligionários - embora superasse com folga o adversário na arrecadação de recursos.

Afeito a trocar tapinhas nas costas com magnatas perto dos quais, com US$ 250 milhões no banco, Romney é apenas um político bem de vida, Ryan já se pôs em campo para empanturrar os cofres republicanos. Parcela ponderável desses nababos tem no candidato a vice o seu ideólogo por excelência. Mesmo levando na devida conta a influência do poder econômico nas eleições americanas - comparáveis ao pôquer, do qual se diz que não é jogado com cartas, mas com fichas -, falta combinar com o fiel da balança, a classe média. Também ela se beneficia, por exemplo, do Medicare, o programa de saúde para os idosos que Ryan quer restringir, como parte do planejado corte de 62% nos gastos com programas sociais. Desde o seu advento, no governo Franklin Roosevelt, nos anos 1930, jamais um político republicano federal, nem mesmo Ronald Reagan, defendeu tamanho retrocesso.

A indicação de Ryan mudou o tom da propaganda de Obama. Ele já não se limita a desqualificar as credenciais de Romney. Mais do que isso, para reaver o voto dos eleitores decepcionados com o seu desempenho, passou a enfatizar a absoluta incompatibilidade de ideias entre os dois candidatos sobre a sociedade americana. As mais recentes pesquisas são animadoras para o democrata. Ele assumiu a dianteira em decisivos Estados pendulares, como Ohio, Flórida e Pensilvânia. Se a eleição fosse hoje, Obama levaria a melhor por 4 pontos de diferença nas urnas e por 298 a 240 votos no colégio eleitoral. Resta ver se, em novembro, a aposta de Romney no efeito Ryan virará o jogo.

 

 

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