Ordem nos ‘rolezinhos’

Estabelecer um mínimo de disciplina e regras para os chamados “rolezinhos” que nos últimos meses vêm sendo realizados no Parque do Ibirapuera – depois que duas jovens foram estupradas no último deles, dia 17 –, além de aumentar a vigilância no local, é a única forma de tentar evitar que fatos como esse voltem a se repetir. E esse é um esforço que não cabe apenas ao poder público. Ele tem de ser dividido com os organizadores e participantes dessas festas de jovens – realizadas até agora informalmente, sem comunicação às autoridades – dos quais se espera um comportamento mais prudente, em seu próprio interesse.

O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2016 | 03h06

Alguns passos nesse sentido já estão sendo dados, como uma primeira reunião entre representantes da Prefeitura, responsável pelo parque, da São Paulo Turismo (SPTuris) e dos que habitualmente organizam as festas, convocando os jovens pelas redes sociais. Na ocasião, além da suspensão de “rolezinhos” já previstos, ficou decidido que uma nova reunião será feita no dia 27 para tratar de um evento, dessa vez oficial, a ser realizado no parque em fevereiro. Esse é o momento adequado para refletir sobre esse tipo de reunião e os riscos que ele acarreta.

Eles não são pequenos, como mostram os casos daquelas duas jovens, uma de 16 e outra de 18 anos, que tiveram sua repercussão ampliada por terem ocorrido no maior parque da cidade e funcionaram como um sinal de alerta. São bem conhecidas as características dessas reuniões e os perigos aos quais, na situação atual, se expõem seus participantes. Um dos que se dizem responsáveis pelo “rolezinho” do dia 17 diz que essas reuniões vêm sendo feitas no Ibirapuera há pelo menos três meses, com no máximo 2 mil pessoas.

Naquele dia, porém, estima-se que havia 12 mil pessoas e, por isso, segundo ele, não teve como controlar. Em primeiro lugar, nem mesmo com 2 mil pessoas haveria como os 59 agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) presentes naquele dia no parque exercerem um mínimo de controle sobre esse tipo de evento, no qual a espontaneidade sem limites costuma ser a regra. O que aconteceu naquele domingo já poderia ter acontecido antes.

Em segundo lugar, o salto de 2 mil para 12 mil pessoas mostra do que é capaz o já conhecido poder de mobilização das redes sociais – para eventos os mais diversos, de lazer a políticos – e dá ideia do tamanho do desafio que é lidar com essa nova realidade.

As medidas adotadas pela Prefeitura para tentar colocar um mínimo de ordem nos “rolezinhos” do Ibirapuera, antes mesmo do resultado da reunião do dia 27, vão na direção certa. O efetivo da GCM no local será dobrado. Isso pode ajudar a reduzir os riscos e demonstra interesse em impor limites às reuniões, mas está longe de resolver o problema. Outra, de maior importância, é exigir comunicação prévia à Prefeitura das reuniões daquele tipo a serem realizadas ali. Isso permitirá dar um mínimo de organização à festa e, como tudo indica que a GCM não poderá cuidar sozinha da segurança, apelar para a Polícia Militar.

Esse mínimo inclui fazer valer a proibição de bebidas alcoólicas no parque. Os organizadores dos “rolezinhos” asseguram que não vendem bebidas, mas reconhecem que “tem gente que já leva bebida de casa”. O fato é que é público e notório que a bebida corre solta ali.

É preciso reconhecer realisticamente, porém, que nada disso bastará para prevenir novos casos de violência. Para tanto, é indispensável a ajuda dos participantes e, especialmente no caso dos menores de idade, também de seus pais. Não se pode invocar rigorosamente nenhum tipo de circunstância atenuante para a prática de ato sexual contra a vontade expressa das duas partes. O fato de a reunião se chamar “rolezinho do beijo” pouco importa.

Esse princípio não impede, contudo, que os jovens que participam de tais “rolezinhos” tomem os necessários cuidados para não se expor a riscos. Essa é a contribuição importante que se espera deles, com a ajuda de seus pais.

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