Os 30 anos do programa espacial Brasil-China

Ao longo desse tempo ele se tornou marco de cooperação entre países em desenvolvimento

*PEDRO HENRIQUE BATISTA BARBOSA, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2018 | 03h00

Em tempos de escalada da guerra comercial e retórica entre China e EUA e de preocupações com seus possíveis efeitos para a economia mundial, e brasileira, uma data e um anúncio importantes passaram despercebidos. Brasil e China anunciaram recentemente o lançamento do sexto satélite binacional de sensoriamento remoto, num momento especial: completam-se em 2018 os 30 anos do programa espacial CBERS (sigla em inglês para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres). Em acordo assinado na visita do presidente José Sarney à China, em 1988, ambos os países deram início a uma parceria espacial inédita e pioneira entre nações em desenvolvimento, que já trouxe benefícios à sociedade brasileira.

Nos anos 1980, Brasil e China buscavam unir esforços para dar um impulso em seus programas espaciais, ambos iniciados por volta da década de 60. Como potências emergentes, viam na cooperação uma oportunidade de dinamizar um setor estrategicamente importante, cuja concepção dual permitia benefícios às indústrias civil e militar. Unindo recursos financeiros e tecnológicos, buscavam romper o bloqueio das nações desenvolvidas à transferência de tecnologias avançadas.

É bem verdade que de 1988 para cá os programas espaciais dos dois países evoluíram em ritmos diferentes. A China desenvolveu os modernos veículos lançadores Longa Marcha, enviou diversos satélites e missões tripuladas ao espaço e criou um sistema de posicionamento, o Beidou, que já compete com o norte-americano GPS. Seus planos não param por aí. O país inaugurará estação espacial própria em 2022 e pretende enviar um homem à Lua e uma sonda a Marte nos próximos anos.

O Brasil, por sua vez, enfrentou alguns percalços no seu programa espacial, embora tenha visto o primeiro brasileiro, Marcos Pontes, ir ao espaço. Entre restrições orçamentárias e crises financeiras, o País teve seus planos espaciais cada vez mais adiados. Em 2003 o Brasil viu seu projeto de veículo lançador de satélites literalmente ir pelos ares. Um acidente na base de lançamentos de Alcântara tirou a vida de 21 cientistas brasileiros envolvidos no projeto e impôs duros obstáculos à continuidade do nosso programa espacial.

A notícia do lançamento do CBERS-4A vem em bom momento. Após um malsucedido acordo espacial com a Ucrânia, que desde 2003 consumiu R$ 500 milhões e não lançou nenhum foguete, o Brasil rompeu recentemente o tratado e busca agora firmar um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os EUA, que permitirá o uso do centro de Alcântara e fornecerá recursos para revitalizar o programa espacial brasileiro. A base, situada a apenas 250 km ao sul da Linha do Equador, propicia uma economia de combustível de cerca de 30% nos lançamentos. Seu aluguel já foi cobiçado por vários países. 

Ao longo desses 30 anos, o CBERS foi uma exceção no oscilante programa espacial brasileiro. Nesse tempo foram desenvolvidos cinco satélites de sensoriamento remoto, CBERS-1 (1999), CBERS-2 (2003), CBERS-2B (2007) e CBERS-4 (2014) – o CBERS-3 não teve lançamento bem-sucedido, em 2013. O próximo está programado para ser lançado em 2019. O CBERS-4A não só substituirá o último satélite em operação, como também dará continuidade à produção de materiais vitais para os setores agrícola e ambiental brasileiros. Historicamente, mais de 20 mil órgãos brasileiros receberam imagens gratuitamente. O CBERS ajudou instituições como Incra, Embrapa, Petrobrás, IBGE, Ibama e ANA no monitoramento de desmatamentos e queimadas na Amazônia, no controle do nível de reservatórios e expansão urbana e agrícola.

Os benefícios do programa bilateral estenderam-se também a outros países. Com o CBERS o Brasil tornou-se um dos maiores distribuidores de imagens de satélite do mundo. Mais de 2 milhões de imagens foram fornecidas gratuitamente a 20 nações em desenvolvimento na América do Sul, na África e no Sudeste Asiático.

O CBERS ajudou também na continuidade das atividades da cadeia industrial brasileira, assim como na agregação de valor à produção nacional. O programa, por exemplo, permitiu ao Brasil figurar no seleto grupo de países capazes de projetar e fabricar câmeras de alta sensibilidade com qualificação espacial, como as nacionais MUX e WFI. Inovações como essas fazem o CBERS ser considerado um dos principais programas de sensoriamento do mundo, juntamente com o norte-americano Landsat, o francês Spot e o indiano ResourceSat.

Na esteira do sucesso do CBERS, outras iniciativas começaram a surgir. Em 2014 foi inaugurado o Laboratório Sino-Brasileiro de Clima Espacial, em São José dos Campos. Com o novo centro os países passaram a estudar juntos fenômenos que afetam, por exemplo, redes elétricas, telecomunicações e sinais GPS.

Em outra iniciativa inédita na era espacial, Brasil e China assinaram em 2013 o Plano Decenal Espacial, estendendo a cooperação bilateral a áreas prioritárias para a indústria aeroespacial brasileira, como serviços de lançamento e treinamento de pessoal. Além da expansão do CBERS, o plano prevê ainda o desenvolvimento conjunto de um satélite meteorológico geoestacionário, a ser administrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No seu aniversário de 30 anos, o CBERS segue como principal marca da relação científico-tecnológica bilateral. Ao longo desse tempo, o programa tornou-se marco de cooperação em alta tecnologia entre países em desenvolvimento. Comemorar seus 30 anos é oportunidade não só para relembrar as conquistas do passado, mas também assegurar que, nas próximas três décadas, ele se mantenha em seus moldes atuais, cooperativos, e não comerciais, trazendo novos benefícios às sociedades brasileira, chinesa e mundial.

*DIPLOMATA, É DOUTORANDO EM POLÍTICAS INTERNACIONAIS NA UNIVERSIDADE DO POVO DA CHINA (RENMIN UNIVERSITY). 

AS OPINIÕES EXPRESSAS PELO AUTOR SÃO PESSOAIS

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