Os bancos ganharam de novo

Os bancos venceram mais uma parada e ganharam mais quatro anos, até 2019, para adotar novos padrões de segurança contra corridas aos depósitos e ondas de pânico. Passados mais de quatro anos da quebra do Lehman Brothers, banqueiros continuam resistindo às reformas necessárias para tornar o sistema financeiro menos perigoso para a economia global. No último fim de semana seu lobby foi novamente vitorioso. Reunido no domingo, o Comitê de Basileia para Supervisão Bancária, formado por autoridades monetárias de 26 países, decidiu ampliar o prazo para reformas e ainda afrouxou a definição dos recursos necessários para o enfrentamento de crises. Não houve intenção de afrouxar ou apertar as regras, disse Mervyn King, presidente do comitê e também do Banco Central da Inglaterra. O objetivo, acrescentou, foi cuidar do processo com mais realismo.

O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2013 | 02h07

Pela proposta original, os bancos deveriam, a partir de 1.º de janeiro de 2015, dispor de "ativos líquidos de alta qualidade" para enfrentar 30 dias de crise. Na última quebradeira, iniciada em 2007 e agravada em 2008, muitas instituições foram incapazes de sobreviver a pressões de curto prazo, originadas do estouro da bolha de crédito imobiliário.

Com o sistema financeiro abalado, o crédito cortado e a onda de insegurança espalhando-se por todo o mundo, o mundo rico afundou na recessão e arrastou para o buraco, pelo menos por alguns meses, uma porção de países em desenvolvimento, incluído o Brasil.

Desde o início da crise, o Grupo dos 20 (G-20) inscreveu no topo da agenda global uma ampla reforma do sistema financeiro. As mais importantes instituições multilaterais envolveram-se na campanha pelas mudanças e, direta ou indiretamente, na avaliação das inovações necessárias. Até, agora, no entanto, houve muito mais propostas formuladas pelos organismos especializados do que transformações efetivas do setor bancário.

Em outubro, na assembleia anual realizada em Tóquio, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, reclamou pelo menos duas vezes, publicamente, do atraso da reforma. "Se perguntarmos se os bancos são hoje mais seguros do que há cinco anos", disse ela, "a resposta provavelmente será negativa."

Uma análise divulgada poucos dias antes pelo FMI apontava a necessidade de avanços muito maiores que os realizados até aquele momento. Segundo o relatório, o sistema permanecia vulnerável, excessivamente complexo e com atividades muito concentradas nas grandes instituições. Operações muito arriscadas haviam sido mantidas com novas formas, num esforço das entidades financeiras para evitar regras mais severas.

Houve alguma adaptação a novos padrões propostos pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), de Basileia, mas, de modo geral, os banqueiros têm procurado atrasar as reformas.

As decisões formalizadas no domingo aliviam os bancos de duas formas. A chamada cobertura de liquidez começará em janeiro de 2015 com 60% e aumentará nos anos seguintes, para atingir 100% das necessidades no início de 2019. Além disso, houve uma ampliação do conceito de ativos líquidos, com inclusão de novos componentes. Os bancos poderão, por exemplo, incluir títulos lastreados em hipotecas para completar o valor exigido, ao lado de recursos de caixa e de outros itens sujeitos seguramente ao controle da tesouraria.

Os membros do comitê, incluídos os presidentes dos bancos centrais dos Estados Unidos e da União Europeia, acabaram aceitando o argumento dos banqueiros: um ajuste muito forte e rápido poderia diminuir a capacidade de empréstimo dos bancos e prejudicar a recuperação das economias. A aceitação desse ponto é o toque de realismo mencionado pelo presidente do comitê. Há um inegável toque humorístico. Primeiro, os bancos se esbaldaram em operações irresponsáveis e arrastaram o mundo à maior crise em 80 anos. Agora, cobram mais tempo para elevar seu padrão de segurança porque o prazo inicialmente proposto poderia dificultar a superação da crise criada por eles mesmos. Mais segurança, agora, seria, segundo eles, um fator de risco.

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