Os brasileiros subutilizados

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE relativa ao primeiro semestre deste ano constatou que, no período analisado, a taxa de desocupação total no País alcançou 13,1%

O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 03h00

O aumento da taxa de desocupação no primeiro trimestre deste ano – para 13,1% da força de trabalho, de 11,8% no último trimestre de 2017 – já seria um importante sinal de alerta para a deterioração do mercado de trabalho, pois interrompe uma sequência de redução do índice de desemprego que vinha desde o início do ano passado. O exame dos números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no entanto, mostra um quadro social ainda mais preocupante. O número de pessoas que estão subutilizadas é o maior desde 2012, quando essa condição passou a ser aferida, e cresce a quantidade de trabalhadores que buscam ocupação há mais de dois anos. Uma das consequências dessas mudanças é a perda de qualidade média das ocupações existentes – ou seja, pioram as condições de trabalho e de renda. Já os milhões de pessoas que procuram insistentemente uma forma regular de rendimento, mas não encontram parecem ter sido condenadas pela crise a um longo período de desemprego.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE relativa ao primeiro semestre deste ano constatou que, no período analisado, a taxa de desocupação total no País alcançou 13,1%, o que significa a existência de 13,7 milhões de desempregados (pessoas que não trabalham, mas procuraram emprego nos 30 dias anteriores à pesquisa). Dos desempregados, 3 milhões (ou 22% do total) estão nessa situação há mais de dois anos. Esse número é 4,8% maior do que o existente no primeiro trimestre do ano passado.

São dados que dão a dimensão do desemprego e mostram sua persistência em níveis superiores a 10% da força de trabalho desde o início de 2016. Foi quando a crise iniciada um ano antes, como consequência da desastrosa política econômica do governo Dilma Rousseff, passou a afetar mais duramente a vida dos trabalhadores.

A Pnad Contínua relativa ao primeiro trimestre mostra também que o índice de subutilização da força de trabalho atingiu 24,7%, taxa mais alta desde que a situação do mercado de trabalho nacional passou a ser aferida de acordo com a metodologia atual. Essa porcentagem equivale a 27,7 milhões de pessoas.

A taxa de subutilização da força de trabalho inclui os desempregados, os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e a chamada força de trabalho potencial. Esta última parcela (força de trabalho potencial) computa o chamado desalento, formado por pessoas que estavam fora da força de trabalho não por desinteresse, indolência ou aversão ao trabalho, mas porque não conseguiam ocupação depois de a procurarem por certo tempo, não tinham experiência para preencher as vagas oferecidas, eram jovens demais ou idosas demais, ou não encontraram trabalho na localidade em que vivem. São pessoas que, de acordo com os critérios do IBGE, se tivessem conseguido trabalho, estariam dispostas a assumir a vaga.

O coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, observa que, embora a taxa de desocupação tenha caído 4,4% no primeiro trimestre de 2018, na comparação com os dados de um ano antes (de 13,7% para 13,1%), a população subocupada cresceu 17,8% e a força de trabalho potencial aumentou 10%. O que mais contribuiu para esse aumento foi a população desalentada, que passou de 4,1 milhões para 4,6 milhões de pessoas (aumento de 12,2%). Isso significa que a redução do desemprego no período resultou do aumento de formas de subutilização da força de trabalho. O problema é socialmente mais preocupante porque, como observou Azeredo, “o perfil das pessoas desalentadas está focado entre a população de baixa renda, jovens, pretos e pardos”. 

A subutilização da mão de obra é particularmente alta em alguns Estados, como Bahia (40,5% da força de trabalho), Piauí (39,7%), Alagoas (38,2%) e Maranhão (37,4%). As menores taxas de subutilização foram registradas nos Estados do Sul (10,8% em Santa Catarina, 15,5% no Rio Grande do Sul e 17,6% no Paraná).

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