Os contrastes na largada

Os contrastes na largada

As despedidas da ministra Dilma Rousseff e do governador José Serra, além da fala do presidente Lula aos 10 ministros de Estado que se afastavam para participar das eleições de outubro, foram em geral o que se poderia esperar dessa abertura não declarada da corrida ao Planalto: uma ocasião em que os candidatos flexionam os músculos para a temporada que, pela barroca legislação eleitoral brasileira, só deveria começar em junho, quando os seus nomes tiverem sido formalmente aprovados pelos respectivos partidos.

, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2010 | 00h00

Foi também uma oportunidade para os contendores testarem os bordões de suas campanhas. Dilma investiu contra os "viúvos do Brasil que crescia pouco", reiterando que a sua prioridade será "mostrar as realizações dos dois governos", como se Serra fosse em relação a Fernando Henrique o que ela é de Lula - uma emanação. O tucano, por sua vez, lançou o bordão "Vamos juntos, o Brasil pode mais", o tipo do traje publicitário que veste bem qualquer candidato em qualquer eleição, mas, ainda assim, contém uma promessa de superação e uma oferta de competência - reconhecida, aliás, até por adversários.

Descontem-se, em todo caso, os aspectos plastificados dos rituais da quarta-feira, em Brasília e em São Paulo. A substância que deles emerge é o contraste entre os candidatos - posto em evidência por ninguém menos do que o patrono de um deles. No seu discurso em que, para variar, criticou a imprensa, além de enveredar por uma digressão "extra-agenda" sobre a política externa brasileira para o Oriente Médio, Lula deixou escapar que ele praticamente forçou Dilma a concorrer ao que chamou, para não tornar a transgredir a lei, "um cargo talvez até melhor do que a Casa Civil". Ela, exagerou o presidente, era a única de seus ministros a não aspirar à sua sucessão.

Julgue-se como se queira o currículo, as ideias e o estilo de Serra, dele é impossível dizer que é um candidato fabricado ou que não tenha vida própria. A sua segunda tentativa de alcançar o Planalto, assim como a anterior, é um momento natural de uma longa trajetória política e de desafios eleitorais, vencidos uns, perdidos outros. Do outro lado da barricada, já não bastasse Lula assumir o óbvio - a paternidade da candidatura Dilma -, ela própria se incumbiu de apresentar-se como uma sombra apenas de seu criador, a quem citou, direta ou indiretamente, 67 vezes em sua fala.

"Com o senhor, presidente Lula, aprendemos a ser corajosos", entoou em dado momento. "O povo brasileiro sempre acredita no futuro. O senhor nos ensinou a construí-lo", desdobrou-se. Disse ainda que todos os que fizeram parte da era Lula, "deixam o governo melhor do que entraram". Esse abandono ao que em outros tempos se denominaria "culto à personalidade" faz pensar que o problema do País, sob uma eventual presidência Dilma, não serão os maus modos com que tenderá a tratar a sua equipe, a julgar pelo retrospecto, nem a sua confrangedora carência de carisma, mas o seu desvalimento, na ausência do chefe e patrocinador. Sua tarefa, como já afirmou, será a de "manter o Brasil nas suas mãos".

Outro contraste da largada eleitoral esteve no que Lula encontrou para dizer de Serra, e vice-versa. Era previsível que se fustigariam, mas Lula foi baixinho, como se referiu a si mesmo em outro contexto, ao pretender ironizar os hábitos do governador, conhecido por passar boa parte das madrugadas em claro e dormir até as 10 horas. "Quem quiser me derrotar", disse ele, assumindo as vezes de Dilma, "vai ter que correr." Já Serra - no melhor momento de sua alocução - valorizou o caráter e a honra como princípio de governo. "Aqui não se cultivam escândalos, malfeitos ou roubalheiras", comparou. "Até porque nunca incentivamos o silêncio da cumplicidade ou conivência com o malfeito", completou, numa referência inequívoca ao comportamento de Lula desde o mensalão.

É voz corrente que a oposição não tem a oferecer ao eleitorado alternativas às diretrizes econômicas e sociais de Lula. Daí a pobreza do slogan serrista "Vamos juntos, o Brasil pode mais". Por esse raciocínio, não bastaria a Serra a cartada da experiência ante o noviciado da adversária. Ele teria de contrapor também o seu desempenho à esqualidez moral do governo de que ela pretende ser a fiel continuadora.

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