Os dois lados da demografia

Ou o País começa, desde já e corajosamente, a enfrentar esse desafio ou a população pagará um preço alto por essa omissão

O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 03h00

Estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o crescimento da população por faixa etária até 2060 traz boas notícias, especialmente a do aumento da expectativa de vida. O brasileiro está vivendo cada vez mais e assim continuará nas próximas décadas. Mas isso traz o grande desafio de como enfrentar os problemas que inevitavelmente daí decorrem. Para usufruir desse grande avanço é preciso que o País se prepare desde já, porque a evolução detectada pelo IBGE se processa rapidamente.

Dos atuais 208 milhões de habitantes, a população saltará para 233,2 milhões em 2047, quando começará a cair gradualmente até atingir 228,3 milhões em 2060, nível praticamente idêntico ao de 2034 (228,4 milhões), o que indica tendência à estabilização. A taxa de fecundidade, no mesmo período, baixará de 1,77 filho por mulher para 1,66. O dado mais significativo é o da longevidade: hoje de 72,74 anos para homens e 79,8 para mulheres, ela alcançará em 2060, respectivamente, 77,9 e 84,23 anos. A melhor posição entre os Estados é a de Santa Catarina, que chegará a 84,5 anos para ambos os sexos, e a pior é a do Piauí, com 77 anos.

O aumento da longevidade foi muito rápido. A porcentagem da população com mais de 65 anos, de 7,3% em 2010, chegou a 9,2% em 2018 e deve atingir 25,5% em 2060. Isso indica melhora das condições de vida, apesar dos graves problemas enfrentados pelo País.

É indispensável, porém, atentar para o outro lado da moeda. Em 2060, ao contingente de 25,5% dos brasileiros com mais de 65 anos (um quarto da população), virá se juntar o de jovens (de 0 a 14 anos) com 13,9%. Teremos portanto muito mais velhos que jovens. O IBGE explica – e chama a atenção para o fato – que o envelhecimento afeta a chamada razão de dependência da população, representada pela relação entre os segmentos economicamente dependentes (pessoas com menos de 15 anos e com 65 anos ou mais de idade) e o segmento potencialmente produtivo (entre 15 e 65 anos), que é a proporção que em tese deve ser sustentada pela parcela economicamente produtiva.

Em 2018, a razão de dependência da população é de 44%, o que significa que 44 indivíduos com menos de 15 anos e com 65 anos ou mais dependem de cada grupo de 100 pessoas em idade de trabalhar. Essa razão será de 67,2% em 2060. Em outras palavras, será cada vez maior o número de dependentes da população economicamente ativa.

As consequências poderão ser dramáticas. Mantidas as condições atuais, por exemplo, a situação financeira da Previdência será ainda mais agravada, por causa da diminuição progressiva e acentuada do número dos que podem contribuir e o aumento igual dos aposentados e pensionistas. A reforma da Previdência não se impõe apenas para a correção de privilégios e desigualdades gritantes e inaceitáveis, mas principalmente por essa inescapável realidade demográfica.

Como no caso da Previdência, o envelhecimento da população terá reflexos também na mão de obra e no mercado de trabalho. O impacto será igualmente forte no setor de saúde e, mais uma vez, quem mais sofrerá será a população de baixa renda, que depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Se nas condições atuais o seu serviço já é precário, é fácil imaginar o que acontecerá com o grande aumento dos pacientes idosos, cujo atendimento é muito mais caro. Os idosos da classe média, empurrada por sucessivos governos para os planos de saúde pelo descaso irresponsável com o SUS, também serão afetados, pois nesse setor são eles que pagam os mais elevados preços.

Esse fenômeno é universal. Mas ele é particularmente grave aqui, porque o Brasil já começa a viver a mesma situação do envelhecimento da população dos países desenvolvidos, sem ter os recursos e as salvaguardas sociais que eles criaram ao longo do tempo.

O estudo do IBGE é um grito de alerta a todos os que têm uma parcela de responsabilidade na questão: ou o País começa, desde já e corajosamente, a enfrentar esse desafio ou a população pagará um preço alto por essa omissão.

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