Os efeitos do radicalismo

Os dirigentes sindicais dos metalúrgicos de São José dos Campos estão colhendo os resultados do radicalismo político e de greves insensatas para sustentar reivindicações irrealistas. Em resposta às dificuldades que criaram, a General Motors (GM) fechou várias linhas de produção no grande complexo industrial que há mais de cinco décadas mantém na cidade, afetando com isso quase toda a economia do Vale do Paraíba.

O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2013 | 02h15

Os problemas começaram há dois ou três anos, quando a empresa precisou renovar seus produtos, substituindo modelos defasados por outros tecnologicamente mais modernos. Enfrentando uma concorrência cada vez mais acirrada nos mercados interno e externo, como ocorre com outras empresas industriais instaladas no País, a GM também foi obrigada a desenvolver programas de redução de custos operacionais e de aumento de produtividade em seu complexo industrial em São José dos Campos, para defender seus mercados e, se possível, ampliá-los.

Para isso, a montadora tentou negociar com os dirigentes sindicais dos metalúrgicos a adoção de jornadas diferenciadas, novos padrões de remuneração e a redefinição dos planos de benefícios. Propôs, também, o sistema de banco de horas, por meio do qual os operários, em troca da garantia do emprego, aceitam trabalhar mais, quando a demanda do mercado aumenta, e reduzir a jornada, quando as vendas caem.

Mas, como as discussões não avançaram, por causa do radicalismo do Sindicato dos Metalúrgicos de São José, que é dominado por representantes do PSTU e de seu braço sindical, a Conlutas, a GM reduziu paulatinamente suas atividades na cidade, deslocando-as para outras unidades, como as de São Caetano do Sul (SP), Joinville (SC) e Gravataí (RS). Dos R$ 5,5 bilhões investidos pela empresa nos últimos quatro anos, apenas R$ 800 milhões foram destinados ao complexo industrial de São José dos Campos. Dos 7,5 mil operários que ali trabalhavam, 1,5 mil já foram despedidos. E, com o fechamento definitivo da linha que produzia o sedã Classic, anunciado há uma semana, outros cortes são esperados.

Com a decisão da GM de transferir parte de suas atividades de São José dos Campos, os fabricantes de autopeças terão de fazer o mesmo, o que provocará algum esvaziamento econômico na cidade. No início do ano, por exemplo, a Johnson Controls desativou sua fábrica de poltronas para veículos na cidade. A GM era sua única cliente na região. A TI Automotive, que produz sistemas de ar-condicionado para automóveis, já transferiu parte de seus empregados para a unidade de Piracicaba, onde está sediada uma das fábricas da Hyundai.

Para a direção da Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos, o fechamento de linhas de produção da GM acarreta desemprego, dissemina insegurança e afeta negativamente o comércio. Já a prefeitura espera que o problema do desemprego na região seja atenuado com a expansão de outros setores econômicos, principalmente o petrolífero e o aeroespacial. A cidade abriga a principal fábrica da Embraer e uma das principais unidades da Petrobrás.

Mais uma vez arremetendo contra a lógica da economia e das relações trabalhistas modernas, os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos prometeram "reação dura" contra a GM.

Eles podem fazer barulho, mas dificilmente conseguirão reverter as decisões da montadora. O que está ocorrendo em São José dos Campos não é inédito. Em resposta às ameaças de greve, a Renault e a Opel fecharam fábricas na França e na Alemanha e as transferiram para o Leste Europeu. O que os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos não compreendem é que, ao fazerem reivindicações trabalhistas absurdas, encarecem os custos das empresas.

E quando elas são obrigadas a se transferir para onde possam produzir a custos mais baixos, a cadeia automotiva muda, trabalhadores são demitidos e a economia local entra em declínio.

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