Os efeitos econômicos do tsunami

A economia japonesa, a terceira maior do mundo, havia saído da recessão e deveria crescer 1,6% neste ano, segundo projeção divulgada em janeiro pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O Japão cresceria bem menos que outros países da Ásia, mas seu desempenho seria melhor que os da Itália (1%), da Espanha (0,6%) e do conjunto da zona do euro (1,5%). Qualquer nova estimativa é temerária, neste momento, quando o país ainda sofre os abalos secundários do maior terremoto de sua história e começa a avaliar os efeitos do tsunami do último fim de semana. A reconstrução das áreas devastadas custará pelo menos US$ 180 bilhões, segundo os primeiros cálculos. Mas essa projeção poderá revelar-se otimista, porque nem mesmo se conhece a extensão dos danos e problemas causados pelas explosões nas centrais nucleares afetadas pelo desastre natural. Apesar de tudo, é possível apontar desde já algumas consequências econômicas da tragédia.

, O Estado de S.Paulo

17 Março 2011 | 00h00

De imediato, o Japão e seus parceiros comerciais sofrerão os efeitos da interrupção de atividades em várias fábricas de alguns dos maiores grupos industriais do país, como Toshiba, Sony, Toyota, Nissan e Honda. A paralisação dessas unidades, mesmo por um breve período, afetará as exportações, um dos principais motores da economia japonesa. Com vendas externas de US$ 765,2 bilhões no ano passado, o Japão manteve a quarta posição entre os exportadores, superado pela China, pela Alemanha e pelos Estados Unidos. Outros países compram da indústria japonesa não só produtos finais de consumo, como automóveis, televisores e aparelhos de som, mas também componentes e bens de capital. Dependem do Japão, portanto, como fornecedor de itens essenciais para a sua produção. A indústria japonesa foi responsável no ano passado por 13,9% das vendas globais de equipamentos eletrônicos industriais e 20,8% da oferta de microprocessadores - apenas para mencionar dois exemplos.

Indústrias da Ásia dependem amplamente de componentes fornecidos por fábricas japonesas e deverão enfrentar, durante algum tempo, uma redução de fornecimento. Indústrias brasileiras do setor eletroeletrônico são também dependentes de fornecedoras do Japão. Cadeias produtivas internacionais serão afetadas, portanto, pela paralisação de indústrias japonesas. Os danos serão limitados, se a produção for retomada em pouco tempo, mas é difícil, hoje, prever quando se normalizará a atividade daquelas fábricas.

Passados os piores efeitos do desastre, a economia japonesa entrará numa fase de reconstrução. Haverá grandes investimentos públicos e privados e isso ampliará a demanda mundial de minério, aço e outros insumos necessários à recuperação da infraestrutura e de outras instalações destruídas pelos abalos e pelo tsunami. Esses investimentos deverão dar impulso ao crescimento japonês e terão reflexos benéficos na economia global. Mas o governo deverá administrar a reconstrução sem esquecer por muito tempo um dos principais problema de longo prazo - o endividamento.

A dívida pública japonesa equivaleu, no ano passado, a cerca de 226% do Produto Interno Bruto (PIB). Numa lista de 132 países compilada pelo governo americano, o governo japonês aparece em segundo lugar na escala dos endividados, abaixo somente do Zimbábue, com dívida correspondente a 242% do PIB.

O Japão enfrenta há anos um severo problema fiscal, agravado pela demografia - uma porcentagem crescente de idosos e custos previdenciários e assistenciais em rápida elevação. O assunto é bem conhecido e em 2010 o FMI produziu um estudo sobre o desafio do financiamento da dívida pública japonesa.

Diante da tragédia causada pelos tremores e pelo tsunami - e das incertezas quanto ao risco da contaminação nuclear -, as autoridades japonesas serão forçadas a esquecer, por algum tempo, as preocupações com os fundamentos macroeconômicos. Não é hora de pensar nas limitações fiscais nem de abrir o manual das boas práticas de finanças públicas. Mas será preciso enfrentar essas questões quando a reconstrução estiver em marcha - e o ajuste será quase certamente mais complexo do que se previa até há pouco tempo.

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