Os embustes na área da saúde

Artigos de médicos de elevado nível acadêmico e profissional opinando sobre o programa Mais Médicos devem ser levados em consideração, por serem oriundos de pessoas que dispõem de profundo conhecimento dos problemas que nos acometem atualmente. Conforme já expus em outros artigos neste jornal, tenho profundas críticas a esse programa, instituído pela atual forma de governar este país. São medidas paliativas, cosméticas, de varejo, que não alteram o estado de falência em que a saúde se encontra. A gênese desse quadro dramático vem de décadas de malfeitos, agravados nas gestões mais recentes.

CHARLES MADY, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2015 | 02h44

Somos cada vez mais sensíveis aos erros crescentes que o governo comete em relação à saúde e à educação. Entretanto, muitos textos por nós escritos, que geralmente agradam a boa parte da população, parcialmente informada, omitem outras realidades que também nos levaram à grave situação em que nos encontramos. Os erros externos aos centros de ensino recebem nossas críticas, mas somos geralmente pobres em apontar, como autocrítica, os erros internos, que são amplamente conhecidos, mas pouco abordados em razão de poderosos interesses corporativos, fisiológicos e mesmo pessoais.

As grandes perguntas são: formamos médicos adequados para a nossa sociedade nos cursos ministrados? Os corpos docentes dedicam-se de forma adequada a esses jovens? Será que realizamos o certo institucional, e não o conveniente pessoal, que é uma forma decadente de atuar? Será que essa forma decadente se transformou em algo cultural? Será que a baixa qualidade profissional e a má distribuição existiriam da forma atual se políticas adequadas de governo, aliadas a reformas universitárias sérias, tivessem sido discutidas, concluídas e implementadas?

Como membro de uma universidade, vou-me ater a esse lado pouco discutido, tentando colaborar, de forma construtiva, com essa questão difícil, espinhosa, dolorosa. Tal e qual a reforma política no Brasil, as reformas universitárias vêm sendo subvalorizadas e discutidas de forma inconsequente. Já assisti a inúmeras reformas no ensino médico, todas com poucos resultados. Não adianta implantar novos currículos se os recursos humanos permanecem com os mesmos vícios. Não havendo mudanças de mentes, formando corpos docentes realmente institucionais, nenhum currículo vai realmente funcionar. Como muito bem disse Paulo Freire, “educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Cada um deveria ter o objetivo de conformar o seu interesse ao interesse geral. É a única forma de mudar, de fazer evoluir.

Para piorar, qual é o índice de permanência e dedicação dos corpos docentes nos centros de ensino? A fuga de cérebros das universidades públicas é um fato. Não sabemos o que ocorrerá com a abertura de novas escolas privadas, patrocinadas por entidades poderosas, que atrairão uma enormidade de professores em busca de melhores condições de trabalho. Mas vamos deixar claro que não são só o poder e o dinheiro que fazem uma boa escola de medicina.

Sigamos o pensamento do professor dr. Fábio Konder Comparato, patrimônio intelectual e ético deste país, que em entrevista disse que os ministros do Supremo Tribunal Federal não são controlados por ninguém. Vamos transportar esse pensamento para a carreira universitária, em que os titulares são vitalícios a partir do momento em que assumem o cargo, tornando-se inatingíveis e pequenos imperadores em seus feudos. Quem os julga em seus acertos e erros, em suas atividades e produção? Quantos impõem uma política institucional, e não pessoal? Quem os elege, e de que forma, para seus cargos? Qual é o nível de aprovação que seus pares lhes dão?

Todos sabemos que a perpetuação do poder gera erros enormes, tal e qual totalitarismos políticos. Será que novos ares, novos ventos, como disse certo cantor, não fariam evoluir a qualidade do ensino superior? Seria interessante consultar a idade de aposentadoria em países desenvolvidos.

Sem dúvida, o governo precisa repensar suas políticas perante saúde e universidades. Mas as Academias também têm papel importante nessas políticas, discutindo reformas estruturais humanas, culturais, deixando uma herança, um legado benigno, e não uma estrutura personalista e decadente. Devem deixar de viver isoladas, inacessíveis ao público em geral, portanto, difíceis de ser criticadas. As Academias devem satisfações à sociedade, que as mantém. Não devem servir apenas para aumentar o prestígio de seus integrantes. Essa palavra, prestígio, anda de mãos dadas com o egocentrismo doentio. Sem críticas os erros se perpetuam.

O que hoje vivemos gerou desencanto, desesperança e frustração. Reconheço que esses pensamentos podem levar alguns a achar que sejam movidos à frustração. Estão absolutamente certos. Frustração por assistir diariamente a atitudes destrutivas daqueles que tiveram e têm o poder de mudar, de fazer evoluir, mas não o fazem, preferindo viver movidos por uma política rasteira, muito semelhante à política de nossos governantes, com a conivência do sistema instalado. É nossa obrigação, como acadêmicos, apontar, entender e tentar solucionar os problemas presentes, e sair desta curva descendente de qualidade. Temos de enxergar que devemos formar mais médicos que interajam com os pacientes, e não nos concentrar em tecnologias de ponta, que produzem ciência necessária, mas não formam bons clínicos e cirurgiões.

Como muito bem disse Norberto Bobbio, “aprendi a respeitar as ideias dos outros, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar”. Todos nós deveríamos aprender com essas palavras. Sem dúvida, seria uma enorme evolução para os centros de ensino. E para toda a sociedade.

* CHARLES MADY É PROFESSOR ASSOCIADO DA FMUSP, FOI MEMBRO DO CONSELHO DIRETOR DO INCOR. E-MAIL: CHARLES.MADY@INCOR.USP.BR

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