Os emergentes e a briga alheia

A retirada de capitais voláteis pode ocasionar turbulências

O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 03h00

Brasil e outros países emergentes são prejudicados pela tensão comercial entre Estados Unidos e China antes mesmo de iniciada, com imposição efetiva de barreiras, a temida guerra de tarifas entre as duas maiores potências econômicas. Em junho, aplicadores em carteiras de renda fixa e de ações tiraram US$ 8 bilhões desses mercados, segundo estimativa do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla original). Não chegou a ser um desastre, mas essa movimentação tem provocado enorme instabilidade cambial, gerado insegurança entre investidores e empresários, afetado preços no atacado e alimentado o temor de novas pressões inflacionárias. Os fluxos de capitais para emergentes continuam, de modo geral, positivos, principalmente por causa do investimento direto, mais estável, produtivo e vinculado a objetivos de longo prazo. Mas a retirada de capitais voláteis, mais intensa em momentos de incerteza, pode ocasionar turbulências importantes e danos consideráveis.

A movimentação internacional de capitais tem sido afetada, no curto prazo, principalmente por dois fatores - a elevação de juros nos Estados Unidos e a incerteza quanto à evolução do comércio internacional. A alta dos juros americanos é consequência da normalização da política monetária nos Estados Unidos, depois de vários anos de grande oferta de crédito muito barato. Diante da firme recuperação da atividade e do emprego, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) decidiu adaptar sua estratégia a um cenário com possibilidade de inflação a caminho da meta de 2% ao ano. O aperto tem sido gradual, mas suficiente para atrair capitais para os Estados Unidos e valorizar o dólar.

O outro fator, a insegurança quanto à evolução do comércio internacional, está associado à truculência do presidente Donald Trump, às suas ameaças protecionistas e ao risco de uma guerra comercial. O principal adversário deve ser a China, mas o conflito pode envolver também a União Europeia e, além disso, medidas protecionistas já foram definidas contra vários outros parceiros, incluído o Brasil.

A turbulência nos mercados de câmbio já fez uma vítima importante, a Argentina. Muito dependente de financiamento externo e sem dispor de reservas suficientes para enfrentar um choque, o governo do presidente Macri já foi forçado a pedir ajuda - fixada em US$ 50 bilhões - ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Outros países emergentes têm sido apontados no mercado financeiro como especialmente vulneráveis a novos choques.

No Brasil, o Banco Central (BC) tem procurado atenuar a turbulência principalmente por meio de operações de swap cambial, aumentando a oferta de dólares e garantindo resgate em reais a uma taxa aceita como segura pelo mercado. O câmbio só afetará a política de juros, segundo a política anunciada oficialmente, se a alta do dólar produzir claros efeitos inflacionários.

Não há sinal, por enquanto, de influência significativa do câmbio na evolução dos preços ao consumidor. Mas há indícios de efeitos no atacado. Em maio, a alta do dólar foi o principal fator de elevação dos preços industriais (+ 2,33%), segundo Alexandre Brandão, gerente do Índice de Preços ao Produtor (IPP) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Em junho, de acordo com o IIF, os aplicadores em carteiras tiraram US$ 4 bilhões da África e do Oriente Médio, US$ 2,7 bilhões da Ásia e US$ 2,5 bilhões da América Latina. Saiu dinheiro também da China e isso foi uma novidade. No Brasil, a instabilidade cambial é explicável também por um fator interno, a enorme insegurança quanto à estratégia econômica do futuro presidente e à manutenção da pauta de ajustes e reformas.

Apesar das pressões cambiais e da retirada de capitais aplicados em carteiras, o fluxo líquido, incluído o investimento direto, tem sido vigorosamente positivo. O ingresso nos países emergentes aumentou de US$ 19,6 bilhões em abril para US$ 26,6 bilhões em maio, segundo o IIF. No ano, até maio, a entrada líquida passou de US$ 168 bilhões. Nem por isso os surtos de turbulência deixam de causar estragos.

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