Os emergentes vão submergir?

O início de 2014 veio com um alerta que mais parece de voo: afivelem os cintos que o ano está começando. Os investidores resolveram retirar bilhões de dólares dos fundos de investimento para economias emergentes. Há vítimas entre os países. A Turquia viu sua moeda se depreciar e foi obrigada a um choque de juros para evitar o pior. A Argentina e a Venezuela sofrem da falta de dólares (e outras cositas básicas), o que sempre é o fim da linha para esses regimes voluntariosos. Até Brics como Rússia e África do Sul sofreram. O que está acontecendo? Qual é o fundamento para essa aversão a emergentes? Será que ela vai atingir todos os países em desenvolvimento? Como o Brasil pode defender-se neste momento?

Ilan Goldfajn*, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2014 | 02h08

Certamente, há uma reação negativa às economias emergentes no momento atual. Os recursos saem dos emergentes e vão buscar refúgio nas economias avançadas. Houve saques de pelo menos US$ 13 bilhões dos fundos de investimentos para emergentes neste ano, US$ 8 bilhões só na semana passada. Nos fundos de investimento para a América Latina, foram dois saques de mais de US$ 3 bilhões. A semana passada só não foi pior diante dos fluxos que ocorreram quando o ex-presidente do Federal Reserve Ben Bernanke anunciou que começaria a normalizar a política monetária nos EUA (tapering) no fim de maio do ano passado.

Com a saída de capitais as moedas perderam valor, e o dólar ganhou. Neste início de ano a Turquia viu sua moeda se depreciar em mais de 5% (apesar da subida de juros em 4,25 pontos porcentuais de uma vez). O florim húngaro depreciou-se 6,5%. Na América Latina, os pesos colombiano e chileno perderam, respectivamente, mais que 4% e 5%, o que é muito para um mês. Sem mencionar o peso argentino, que despencou 18% neste mês, em típica crise cambial.

Os Brics, antes as locomotivas do mundo e agora vistos como em "crise de meia-idade" (título da sessão a que assisti com ministros da Fazenda no Fórum Econômico em Davos), não foram poupados: o rublo perdeu 6,5% e o rand sul-africano, quase 6%. O real até que foi poupado neste ano, depreciando-se "apenas" 1,7%, uma vez que sofreu consideravelmente em 2013. O que está havendo no mundo?

Há um retorno dos investidores para as economias avançadas. Desde a crise financeira em 2008 as economias emergentes tornaram-se o principal motor da economia global, descolando-se das desenvolvidas. Aparentemente, no entanto, os papéis estão prestes a se inverter, com a recuperação dos países do G7 - especialmente os EUA - e a desaceleração das principais economias emergentes. Brasil, China e Índia, por exemplo, recuaram de 3,7%, 9,6% e 7,3% na média do crescimento entre 2008 e 2011 para algo em torno de 2,2%, 7,7% e 3,8% em 2013, respectivamente.

O que era visto como uma sólida tendência de longo prazo - o crescimento mundial impulsionado pelo dinamismo dos emergentes - se dissipou na cabeça dos investidores que questionam seu futuro. Parece que o estopim para a piora na semana passada foi o número fraco de atividade na China e a crise localizada nesse mercado financeiro informal.

Muitos se perguntam se mudou tudo: e, agora, os emergentes vão submergir e os avançados emergir?

Acredito que não. Nas últimas décadas, economias avançadas e emergentes alternaram performances positivas e negativas. Em certos momentos cresceram de forma alinhada, em outros se descolaram completamente. Hoje em dia há sinais mais animadores entre os avançados, principalmente nos EUA, que devem voltar a crescer 3% neste ano. Mas uma questão-chave é saber se a recuperação dessas nações, ainda responsáveis por mais da metade da demanda global, pode reacender o fôlego das economias do mundo emergente.

No passado recente, a "maré" global foi determinante. Nos tempos favoráveis da primeira década do século bastava não errar muito para crescer razoavelmente. Algumas economias aproveitaram mais que outras, mas todas tiveram desempenhos favoráveis. Já a crise em 2009 derrubou todas, independentemente da qualidade de seus fundamentos.

Desta vez a maré deve subir apenas moderadamente e levantar alguns barcos emergentes, mas não todos: é provável que os efeitos da recuperação dos avançados sobre os emergentes sejam mistos, determinados pelos fundamentos de cada país.

A preocupação é que se repita o ocorrido na década passada, quando os juros nos EUA passaram a subir a partir de 2004, após um período prolongado de baixa. O movimento provocou turbulência nos mercados que, se reeditado no atual ambiente, poderia contrabalançar o impulso positivo que a retomada do mundo avançado teoricamente deveria causar.

Com a esperada normalização da política monetária e a consequente redução da liquidez global, dois fatores serão chave para a diferenciação entre emergentes: a dependência de poupança externa e o bom uso dos fluxos de capital.

O grande desafio para o Brasil é buscar um bom desempenho num ambiente de crescimento moderado dos países desenvolvidos e performance heterogênea entre os emergentes. No caso do Brasil, ajustes macroeconômicos são necessários, particularmente do lado fiscal. A dívida externa relativamente baixa e o tamanho do mercado interno são aspectos positivos do País. Acordos de livre-comércio seriam muito bem-vindos.

A escolha e a qualidade da política econômica serão decisivas para o desempenho dos países emergentes no médio prazo. O Brasil ainda tem em mãos instrumentos para corrigir e recalibrar a sua estratégia econômica, com custos políticos relativamente administráveis. As escolhas de política econômica a serem feitas nos próximos anos provavelmente definirão o desempenho do País até pelo menos o fim da atual década.

*Ilan Goldfajn é economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco.

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