Os espinhos de Dilma

As duas semanas que restam até a posse não prometem vida fácil para Dilma Rousseff. Ninguém imagina que seja tranquila a tarefa de escalar um primeiro escalão governamental, mas a presidente eleita tem tropeçado em dificuldades das quais provavelmente não suspeitava quando, logo após a consagração nas urnas, se debruçou sobre esse complexo desafio cujos principais entraves analisamos em editorial anterior, dedicado ao "Gabinete das cotas": a necessidade de cumprir compromissos assumidos com partidos aliados, atender a demandas regionais, garantir a presença de mulheres em pelo menos 30% dos cargos a serem preenchidos e, ainda, se desincumbir da missão praticamente impossível de satisfazer a todas as facções do próprio Partido dos Trabalhadores (PT), que certamente acreditaram na promessa feita durante a campanha eleitoral pelo notório José Dirceu, de que com a vitória de Dilma o PT chegaria, afinal e definitivamente, hegemônico ao poder. O agravamento do imbróglio que deve estar tirando o sono da sucessora de Lula, na verdade, pode ser debitado à conta de duas razões principais: as bases de sustentação quase que estritamente fisiológicas da aliança que garantiu a vitória nas urnas e o papel de Luiz Inácio Lula da Silva em todo esse jogo.

, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2010 | 00h00

Começando por Lula: depois de escolher a candidata, carregá-la nas costas durante toda a campanha - o que incluiu "disciplinar" os petistas de vários Estados, como ocorreu em Minas Gerais -, elegê-la com a transferência de seu enorme prestígio popular e então definir e impor sua própria cota na composição do Gabinete, parece que Lula se deu, por enquanto, por satisfeito. Passou a dedicar-se à tarefa de viajar para lembrar aos brasileiros dos mais remotos rincões de que nunca antes neste país houve um presidente da República tão maravilhoso. E a nau petista começou a fazer água, como evidencia o motim que provocou o alijamento do candidato tido como "oficial" à presidência da Câmara, Cândido Vaccarezza. A rebelião da bancada petista, que resultou na indicação da candidatura do deputado gaúcho Marco Maia em detrimento do nome preferido pela direção partidária e pela presidente eleita, está sujeita à reversão até 15 de fevereiro, quando o sucessor de Michel Temer será eleito. Mas ninguém duvida de que esse enorme contratempo poderia ter sido evitado se Lula se tivesse disposto a usar a favor de Vaccarezza o mesmo poder de persuasão que fez com que o PT mineiro desistisse de lançar candidato próprio ao governo do Estado para apoiar o peemedebista Hélio Costa. Cabe, então, perguntar: depois de ter-lhe propiciado todos os bônus, teria Lula chegado à conclusão de que é hora de deixar Dilma encarar por conta própria os ônus do jogo político? A resposta positiva fez sentido, para o bem ou para o mal da sucessora.

De qualquer modo, a causa principal das dificuldades que Dilma está enfrentando para concluir no prazo que se impôs o trabalho de montagem de seu Ministério é certamente a herança maldita - para usar uma expressão cara aos petistas - da prática deslavada do puro fisiologismo consagrada por oito anos de governo Lula nas relações com os políticos e seus partidos. É claro que o presidente que se despede não inaugurou essa prática na vida pública brasileira. Mas - logo ele, que passara a vida com o dedo em riste no nariz dos políticos - aprimorou-a quase à perfeição. Faz parte de seu charme. No plano individual, José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor, Jader Barbalho e outros tantos que o digam.

E que o diga, no plano partidário, o principal aliado de Lula - o PMDB. Em entrevista publicada no Estado, o presidente nacional do PMDB (que nos próximos dias pedirá licença do cargo) e vice-presidente da República eleito, com sua inegável habilidade para contornar questões espinhosas, deixou no ar algumas pistas daquilo que de seu partido se pode esperar daqui para a frente: "Não creio que o PMDB vá dar trabalho (a Dilma) em votações, mas de qualquer maneira isso já seria falar sobre o futuro e sobre hipóteses, e isso nós não devemos fazer." Pilatos não diria melhor. Nem Pinóquio: "O PMDB não se quer fisiológico. Quer ser um partido cada vez mais voltado para as questões programáticas das áreas que vai comandar." Será com isso que Dilma governará.

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