Os EUA aceleram

Boa notícia para os exportadores de todo o mundo: a economia americana está cada vez mais vigorosa e cresceu no segundo trimestre em ritmo equivalente a 4,6% ao ano. Os Estados Unidos voltam a ser o principal motor econômico do globo, embora o papel da China e de outras potências dinâmicas da Ásia continue a ser muito importante. A notícia reforça, no entanto, a expectativa de aumento dos juros básicos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já em 2015. Os juros vêm sendo mantidos há muito tempo entre zero e 0,25% ao ano. A primeira elevação será, provavelmente, moderada, mas a mera perspectiva de uma política mais severa afeta os mercados de câmbio e de capitais. A tendência de valorização do dólar deve manter-se nos próximos meses e as condições de financiamento no mercado internacional devem ficar bem menos favoráveis.

O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2014 | 02h04

Para as economias mais competitivas e com bons fundamentos, a evolução do quadro americano oferece oportunidades. O crescimento da maior economia do mundo deve aumentar a procura de bens estrangeiros e ampliar as oportunidades para os exportadores de muitos países. Para as outras, a mudança na situação dos Estados Unidos poderá resultar em mais desafios. Maiores volumes de capitais serão atraídos para o mercado americano, os empréstimos ficarão mais custosos e a alta do dólar poderá reforçar as pressões inflacionárias.

O Brasil se enquadra, principalmente, no segundo caso, embora as exportações para os Estados Unidos tenham crescido com algum vigor neste ano. As contas públicas em mau estado e a inflação ainda muito alta dificultam a redução dos juros, elevam os custos de produção e tornam a indústria nacional menos competitiva. Além disso, com a alteração dos fluxos de capitais e o aumento dos juros externos, ficará mais caro e mais complicado cobrir o buraco da conta corrente do balanço de pagamentos, que tem ultrapassado 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e dificilmente se reduzirá de forma significativa em 2015.

O real desvalorizado poderia beneficiar as exportações brasileiras, tornando-as mais baratas em dólares, euros ou libras, mas a depreciação da moeda nacional pode resultar igualmente em mais inflação no Brasil. Para diminuir ou prevenir esse risco, o Banco Central (BC) mantém desde o ano passado uma política de intervenção diária no mercado de câmbio. Por meio de operações de swap, o BC aumenta a oferta de moeda americana e limita sua valorização. Nos últimos dias, houve aumento do volume oferecido.

Com inflação em 12 meses acima de 6% e um novo surto de aumentos a partir de agosto, a autoridade monetária tem razões muito fortes para se preocupar com pressões adicionais originárias do câmbio. Outros países, com inflação menor, poderão beneficiar-se mais, e com menor perigo, dos efeitos cambiais do progressivo aperto monetário nos EUA. No Brasil, a tolerância oficial à inflação deixa o País exposto a problemas e impedido de aproveitar plenamente os benefícios comerciais de uma depreciação do real.

Apesar dessas limitações e dos muitos e graves problemas de competitividade, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 17,82 bilhões de janeiro a agosto e foram 11,3% maiores que as de um ano antes. O resultado poderia ter sido melhor, se houvesse acordo de livre-comércio entre os dois países, porque o acesso ao mercado americano seria mais fácil. Outros latino-americanos dispõem dessa condição. O governo petista se opôs a um acordo desse tipo e deu preferência a pactos comerciais com países em desenvolvimento.

Neste ano, as vendas para a Argentina, principal parceiro comercial do País no Mercosul, ficaram em US$ 9,82 bilhões entre janeiro e agosto e foram 23,5% menores que as de um ano antes. As exportações para a América Latina e o Caribe, de US$ 30,57 bilhões, foram 6,7% inferiores às de igual período de 2013. Esses parceiros estão muito mais voltados para os Estados Unidos do que para o Brasil.

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Editorial Estadão EUA

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