Os EUA ainda em recessão

O presidente Barack Obama completou cem dias de mandato com alto nível de popularidade e novas más notícias sobre a economia de seu país. Ele e milhões de eleitores devem continuar apostando nas medidas de estímulo já adotadas, mas os sinais de reação, por enquanto, são escassos. No primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto encolheu num ritmo equivalente a 6,1% ao ano, resultado bem pior que o estimado pelos analistas consultados pela Dow Jones - uma contração de 4,6%. Foi a terceira redução trimestral consecutiva. Nada semelhante havia ocorrido nos últimos 34 anos. A reação do consumo, depois de uma forte queda nos três meses finais de 2008, é um dos poucos indicadores positivos, mas a melhora foi insuficiente para impedir a contração geral dos negócios.O prolongamento da crise americana afeta as perspectivas de recuperação de todo o mundo. O comércio continuará deprimido enquanto a maior das economias permanecer em recessão ou mesmo em marcha muito lenta. Até agora, nada indica uma perspectiva melhor do que aquela indicada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). No cenário global divulgado na última semana, a projeção para os Estados Unidos aponta uma retração econômica de 2,8% em 2009 e crescimento zero em 2010. As duas projeções são mais baixas que as divulgadas em janeiro. Discursando no sábado passado, na reunião do Fundo, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, referiu-se vagamente a alguns primeiros indícios de reativação econômica, mas não mostrou muito otimismo em relação aos próximos meses. O desemprego, segundo ele, ainda vai aumentar, depois de ter atingido 8,5% da população economicamente ativa em março, o maior nível em 26 anos. Se ele estiver certo, também a recuperação do consumo será lenta, porque a massa de salários continuará reduzida, e, além disso, o acesso ao crédito permanecerá restrito. Milhões de famílias estão endividadas, muitas não conseguem pagar as hipotecas de suas casas e o mercado financeiro permanece travado. A recuperação dos bancos, indispensável à normalização da economia americana, provavelmente ainda vai demorar. Segundo o Wall Street Journal, o Citigroup e o Bank of America precisarão de mais capital para enfrentar um eventual agravamento da crise. Esse teria sido o resultado dos "testes de estresse" aplicados pelas autoridades monetárias, de acordo com a reportagem. Não houve comentários oficiais sobre o assunto. De toda forma, o governo americano tem sido lento no resgate dos bancos, de acordo com a avaliação de autoridades europeias - mas também os progressos obtidos na Europa, no resgate do setor financeiro, são insatisfatórios, segundo esses mesmos funcionários. Também na Europa as perspectivas de crescimento permanecem ruins e os economistas da Comissão Europeia devem rebaixar suas projeções, segundo anunciou na semana passada o comissário para assuntos monetários e econômicos, Joaquín Almunia.Nesta quarta-feira, a notícia mais positiva veio de Pequim. Depois de uma reunião, os primeiros-ministros da China, Wen Jiabao, e do Japão, Taro Aso, reiteraram o compromisso de estimular a retomada dos negócios em seus países. O FMI projeta para o Japão uma contração econômica de 6,2% em 2009 e um crescimento de 0,5% em 2010. Para a China, o prognóstico é muito melhor - expansão de 6,5% neste ano e de 7,5% no próximo -, mas o país havia crescido 13% em 2007 e 9% em 2008.A contração mundial de 11% no comércio de bens e serviços estimada pelo FMI combina com o cenário geral de retração econômica. Se a estimativa estiver correta, o intercâmbio poderá crescer 0,5% em 2010, mas a partir de uma base muito deprimida. O crescimento econômico brasileiro será inevitavelmente limitado enquanto as grandes economias, incluída a dos EUA, permanecerem retraídas. A economia brasileira ainda é relativamente fechada, mas o comércio externo tem um importante efeito multiplicador, movimentando extensa cadeia de atividades. A economia brasileira dependerá principalmente do mercado interno em 2009. Mas é preciso insistir em estimular as exportações. Será mais duro competir num mercado retraído, mas será essencial para o crescimento a longo prazo defender as posições já conquistadas no comércio exterior.

, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

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