Os fornecedores do pré-sal

A indústria brasileira deverá receber US$ 400 bilhões em encomendas, nos próximos 10 anos, com a exploração do pré-sal. Ganhará, assim, escala para produzir, contratar 2 milhões de trabalhadores, assegurar avanços tecnológicos e aumentar o conteúdo local dos bens. É este, em síntese, o cenário promissor previsto no estudo encomendado pela Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip) à consultoria Booz&Company, divulgado sob o nome de Agenda de Competitividade da Cadeia Produtiva de Óleo e Gás Offshore no Brasil.

, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Para que seja vantajoso produzir - em vez de importar - os equipamentos destinados à exploração do pré-sal, a primeira condição é que tenham custos baixos e alta qualidade. E o estudo mostra o que é arquissabido: que o custo dos produtos brasileiros é muito onerado por tributos e juros elevados, oferta insatisfatória de pessoal qualificado, deficiências da infraestrutura e escassez de crédito de longo prazo.

A demanda estimada de equipamentos leva em conta apenas a exploração dos campos já concedidos do pré-sal, com capacidade de produzir 1 milhão de barris/dia, em 2016, passando para 1,5 milhão, em 2018, e 1,8 milhão de barris/dia, em 2020. Entre as 10 maiores empresas produtoras de petróleo do mundo, apenas a Petrobrás e a Petrochina têm conseguido aumentar suas reservas, que começam a estagnar na maioria dos outros países. A perspectiva de novas e promissoras descobertas explica por que companhias privadas como Chevron, Statoil, OGX, Odebrecht, Shell, Petrogal, Queiroz Galvão e Repsol deverão investir US$ 26 bilhões no pré-sal.

Entre os equipamentos demandados estarão petroleiros e navios de apoio, unidades produtoras, sondas e equipamentos de sísmica. Será movimentada toda a cadeia de produção de sistemas de sustentação e movimentação de cargas, geração e transmissão de energia, circulação de fluidos, separação de lama, segurança dos poços, monitoramento, queimadores, ventilação e ancoragem. Até 2020, a demanda de aço para o pré-sal será de 1,8 milhão a 2 milhões de toneladas, além de 70 mil a 80 mil toneladas de tubos, 100 mil a 120 mil válvulas, 350 a 400 propulsores, igual número de geradores e de 5 mil a 6 mil km de cabos elétricos.

Hoje, a cadeia offshore gera 75 mil empregos diretos e mais de 350 mil indiretos ou provenientes do efeito renda, em segmentos tão variados como siderurgia, telecomunicações e hotelaria. Para chegar aos 2 milhões de empregos, a indústria nacional terá de competir em preço, tecnologia, qualidade e prazo de entrega com os fornecedores globais.

Mas os impostos sobre bens manufaturados em geral, calcula a Booz&Company, pesam 4% na Coreia, 7,3% na Inglaterra, 8,4% na Noruega e 8,7% na China, enquanto no Brasil - considerados ICMS, IPI, PIS e Cofins - a carga pode chegar a 37,1%. Além disso, os juros pesam entre 0,9% e 4,8% no custo final dos produtos e a energia elétrica é mais cara, no País, do que na Rússia, na França, nos Estados Unidos e na China, só sendo mais barata do que no México. A carga tributária é de 45% na energia elétrica, 43% na gasolina, 24% no diesel e 20% no gás natural. O setor também sofre com a falta de investimentos em transporte, pesquisa e desenvolvimento, além do alto custo de obter licenças ambientais.

Como resultado, no Campo Peregrino, por exemplo, as cotações de uma jaqueta são 80% superiores às do mercado internacional; as de pilares e condutores, 200%; e as de módulos deck, 20%. O custo da mão de obra, no Brasil, é inferior em 15% ao da Europa, mas 143% superior ao da Ásia. Reduzindo preços a índices, uma válvula borboleta custa 100 na China e 358 no Brasil; uma bomba de processo, 100 no México e 131 no Brasil; uma caldeira naval, 100 na China e 148 no Brasil; e uma bomba tipo Sea Water Lift, 100 na Noruega e 118 no Brasil.

Entre as propostas da Onip para melhorar a competitividade dos fornecedores brasileiros está a disseminação do conhecimento e da inovação tecnológica, o acesso a matérias-primas, a melhora da infraestrutura e a garantia de isonomia tributária, técnica e comercial com as empresas estrangeiras. Só assim, estimam, os fornecedores brasileiros poderão, de fato, ser beneficiados pelo pré-sal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.