Os incidentes de Heliópolis

Uma semana após os graves incidentes na Favela Olga Benário, no bairro do Capão Redondo, durante a execução de uma ordem judicial de reintegração de posse de um terreno onde 2 mil pessoas viviam em 800 barracos, cenas de violência voltaram a se repetir, agora na Favela de Heliópolis, situada entre a Via Anchieta e a Vila Carioca, e com um total de 100 mil habitantes. Protestando contra a morte de uma jovem de 17 anos, que foi vítima de bala perdida num tiroteio entre integrantes da Guarda Civil Municipal (GCM) de São Caetano e dois suspeitos de roubar um automóvel, moradores realizaram três manifestações, ateando fogo a pneus, automóveis e ônibus, e receberam com pedradas o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar (PM), que respondeu com balas de borracha e bombas de efeito moral.

, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

A primeira manifestação ocorreu nas primeiras horas de terça-feira, foi espontânea e acabou sendo dissolvida pela PM 50 minutos depois de iniciada. O segundo confronto ocorreu à tarde e terminou sem maiores incidentes. A manifestação mais violenta aconteceu entre as 19 e 20 horas e foi previamente planejada para coincidir com o início do noticiário no horário nobre das redes de televisão. Além de incendiar veículos - três ônibus, dois micro-ônibus, três carros e duas caçambas de lixo - e fechar vias públicas com barricadas com pneus, madeira, lixo e entulho de construção, interrompendo o trânsito, os manifestantes tentaram invadir a 1ª Companhia do 46º Batalhão da PM, que fica no meio da favela, feriram dois policiais e trocaram tiros com investigadores do Grupo de Repressão a Roubos e Assaltos e soldados do Grupo de Operações Especiais. Na confusão, fotógrafos, cinegrafistas e repórteres também foram atingidos por pedras, tijolos e paus.

A Polícia Civil já começou a investigar se o tiro que matou a jovem foi disparado por um dos guardas da GCM de São Caetano ou por um dos dois assaltantes. O mais preocupante, no entanto, foi a informação recebida pelo serviço de inteligência da PM de que os moradores da Favela de Heliópolis, uma das maiores da capital e uma das mais beneficiadas por ações de movimentos sociais, foram convocados para o protesto da noite por meio de panfletos que prometiam cestas básicas a quem comparecesse.

Primeiro, suspeitou-se que a manifestação fora organizada pelos líderes das quadrilhas de tráfico de drogas que atuam na região. Um deles foi preso no mês passado e, desde então, viaturas da Ronda Escolar têm sido apedrejadas e até atingidas por tiros. Mas, como imediatamente após a transmissão pela televisão, ao vivo, da terceira manifestação de protesto, invadiram a internet comentários tentando imputar a responsabilidade pela violência ao governador José Serra e sugerindo que o governo estadual estaria reprimindo migrantes nordestinos - a jovem que foi vítima da bala perdida nasceu no Ceará -, as autoridades de segurança pública também começaram a investigar se a distribuição dos panfletos foi planejada com objetivos políticos e eleitorais.

Como afirmamos ao comentar os violentos incidentes ocorridos na Favela Olga Benário, no Capão Redondo, há dias, é importante chamar a atenção para todos esses detalhes, porque eles compõem um quadro que parece ter pouco a ver com a versão distorcida da maioria dos conflitos que envolvem favelados e policiais, na qual todas as culpas são atribuídas à polícia. Independentemente de quem tenha ordenado a distribuição de panfletos convocando o terceiro e mais violento protesto na Favela de Heliópolis, o fato é que as características dessa baderna não deixam margem a dúvidas de que ela não foi planejada por simples moradores.

Por isso, é fundamental que as autoridades de segurança pública façam uma investigação exaustiva sobre os graves incidentes dessa terça-feira, para evitar que eles se tornem rotineiros e impedir que pessoas humildes sejam utilizadas como massa de manobra pelo crime organizado ou por grupos políticos. Também é de vital importância treinar melhor as GCMs. Os violentos incidentes de terça-feira poderiam ter sido evitados se a GCM de São Caetano fosse mais bem preparada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.