Os jovens foram a Cracóvia

E o que lá se viu foi a bela e esperançosa imagem da humanidade convivendo em paz

CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2016 | 03h02

“Vocês querem viver a vida só pela metade, sim ou não?”, perguntou o papa Francisco à multidão de mais de 2 milhões de jovens reunidos no Campus Misericordiae (Campo da Misericórdia), em Cracóvia. E do vasto prado verde, vibrante de entusiasmo juvenil, chegou o brado em uníssono: não!

“Querem se aposentar já aos 20 anos? Vão jogar a toalha ainda no início da luta?”, retomou Francisco, desafiando os jovens. Mais uma vez, ressoou um brado pelo céu de Cracóvia: não! “Digam bem alto, para que o mundo inteiro escute.” Não foi a resposta mais uma vez, acompanhada de um longo aplauso.

Cracóvia viveu dias memoráveis durante a 31.ª Jornada Mundial da Juventude, de 24 a 30 de julho passado: jovens de todos os idiomas, trajes e penteados, de todas as bandeiras, com cantos, sorrisos e alegria boa encheram suas ruas e praças. Igrejas, ônibus e bondes lotados, espetáculos organizados e espontâneos em mais de 30 línguas. Ao todo estavam presentes 168 países; depois das cores da Polônia e da Itália, a verde-amarela do Brasil foi a terceira mais vista.

Cracóvia vibrou de vida e de alegria juvenil, e não era para menos: a jornada, de alguma forma, havia voltado às suas origens, pois foi o polonês e arcebispo de Cracóvia, papa São João Paulo II, que tomou a feliz decisão de iniciar as Jornadas Mundiais da Juventude; ele amou os jovens e por eles foi muito amado. Após a sua morte a cidade dedicou-lhe um belo santuário no mesmo lugar onde ele, quando jovem, trabalhava duro numa pedreira para ganhar a vida. O santuário foi um dos lugares mais visitados pelos jovens, ao lado do da Divina Misericórdia, de Santa Faustina Kowalska.

“Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia” (Mt. 5,7). Essa promessa de Jesus foi o tema e fio condutor das reflexões e iniciativas vividas pelos jovens durante a jornada. O mundo carece de misericórdia. Precisa de justiça, antes de tudo; e de respeito pela dignidade e pelo direito das pessoas. Mas precisa muito do bálsamo da misericórdia, para a superação da miséria e da dor, da violência e do ódio, para alcançar verdadeira paz.

A misericórdia é uma capacidade divina, lembrava o papa aos jovens; ela faz farte da essência de Deus e do seu agir para com os homens. Ele é justo, mas também é misericordioso. Pensar Deus diversamente não está em conformidade com o ensinamento de Cristo. Mas o coração humano também pode ser misericordioso, abrir-se ao próximo, ser sensível e solidário com ele nos seus sofrimentos e angústias. Não se pode dispensar a justiça, mas, por si só, esta não basta e precisa ser acompanhada da misericórdia, que socorre, restaura e faz viver a vítima da injustiça e o próprio autor dela. Justiça sem misericórdia poderia ser uma vingança e tenderia a aprofundar ressentimentos e ódios. E os jovens ouviam, atentos.

Muitos jovens tiveram a oportunidade de visitar os campos de concentração e extermínio de Auschwitz e Birkenau, ali perto, que conservam a memória trágica de um regime desumano e sem misericórdia. Uma geração nova, com a cultura marcada pela misericórdia, poderá ajudar o mundo a se recuperar das feridas de suas guerras, discriminações e seus ódios; a afirmação exacerbada dos próprios direitos, muitas vezes mais supostos que reais, leva a passar por cima do direito dos outros. Jovens animados pela misericórdia ajudarão a promover o diálogo, a solidariedade, o respeito ao próximo; contribuirão para uma nova cultura da paz e fraternidade.

O que se viu em Cracóvia foi a imagem bonita e esperançosa da humanidade, convivendo em paz. Com tantos hóspedes, vindos de países tão diversos – alguns em guerra contra outros –, não se viu no evento um único fato de intolerância ou violência. Nenhum incidente que empenhasse as autoridades policiais. E todos estavam felizes em manifestar sua nacionalidade e cultura; as diferenças não precisam dividir, mas podem somar e enriquecer reciprocamente. Não era alegria forçada, não houve álcool nem droga... Os jovens mostraram que o mundo, cansado de seus fardos de ódio e violência, pode renovar-se mediante um espírito novo, com novas formas de pensar, agir e interagir.

A jornada foi uma grande peregrinação, passando por vários encontros e visitas a santuários, até chegar ao Campus Misericordiae, lugar da grande celebração final. E durante todos os dias do encontro caminharam muito, com vontade de estar lá, de não perder o encontro e não errar o caminho, sem desânimo, sem reparar no cansaço. Foi uma parábola eloquente do que é a própria vida humana: busca perseverante, até alcançar a meta. Mas existe uma meta? Sim, o grande objetivo da vida é o encontro com Deus e alcançar a felicidade; este mundo já nos pode oferecer momentos felizes, mas o coração humano é feito para mais, ele sonha com o infinito.

O papa encorajava os jovens a não desanimarem, a não se deixarem seduzir pelas ilusões da felicidade fácil e sem esforço; a não gastarem a vida com alienações, como a droga, os vícios e o consumismo, que desfibram as energias da alma. “Não deixem que lhes roubem a esperança”, havia dito à multidão de jovens em Copacabana, há três anos. E repetiu aos jovens na Polônia: não deixem que lhes tirem a alegria de viver! Vocês valem muito. Valorizem sua vida!

Na celebração final, da qual participaram cerca de 2,5 milhões de jovens de todo o mundo, Francisco anunciou a próxima jornada: será na Cidade do Panamá, em 2019. O próprio presidente, ao lado do cardeal e dos bispos do Panamá, foi acolher o anúncio do papa Francisco: investir nos jovens, tem grande importância para o futuro das nações e também da Igreja Católica.

E os jovens puseram-se a caminho, mais uma vez, para retornar a seus países. Cansados, talvez, mas felizes e com a alma carregada de energias boas!

*É Cardeal-arcebispo de São Paulo

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