Os juros das cadernetas

Os juros de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), que remuneram os aplicadores em caderneta de poupança, parecem preocupar técnicos do governo, pois estariam num nível que tolheria uma queda mais pronunciada da taxa básica de juros. A questão é saber se é a remuneração das cadernetas que pode estar muito alta ou se é a de aplicações concorrentes, como fundos mútuos, que é baixa.A renda das cadernetas é uma espécie de piso do mercado livre. Foi de 7,7%, em 2007, e de 7,9%, em 2008, livre de IR e de taxas de administração. Em janeiro, a poupança rendeu 0,68% e, em fevereiro, 0,54%, abaixo da média dos fundos.Com a queda da taxa básica, a caderneta se torna mais competitiva. Mas, sobretudo, a renda da poupança vai expor as distorções de outras aplicações em renda fixa. Estas estão sujeitas ao IR na fonte de 15% até 22,5%. Ou seja, mantidas as alíquotas e a queda do juro, o governo poderá ficar com a maior parte da renda real das aplicações.Outra distorção está nas taxas médias de administração cobradas pelas instituições financeiras, que variam de 1,05% ao ano a 4,80% ao ano nos fundos de renda fixa abertos ao público, segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid).Somando o IR à taxa de administração, em muitos casos a renda dos fundos já é inferior à da caderneta. As alíquotas do IR estão calibradas para juros mais altos e deveriam cair. As taxas de administração já caíram e deverão cair mais para ser compatíveis com uma taxa Selic declinante.A participação dos depósitos de poupança no conjunto dos ativos financeiros registrou ligeira variação positiva, de 0,5 ponto porcentual, entre dezembro de 2007 e janeiro de 2009, de 8,6% para 9,1%. É possível que esse porcentual aumente, mas sem voltar aos níveis históricos de participação de 37%, em 1980, ou mesmo de 16%, em 2000.A recuperação dos depósitos de poupança significará mais recursos para o crédito imobiliário. Esta modalidade cresceu, desde 2003, mas ainda tem proporções modestas na comparação com outros países.Antes de pensar numa redução da remuneração das cadernetas, o governo deveria estimular muito mais do que já estimula as aplicações de longo prazo, a exemplo do que faz com os fundos de pensão.Mesmo no âmbito do governo, como mostrou matéria de Fábio Graner, no Estado de sexta-feira, parece não haver consenso sobre a redução da renda da poupança.

, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

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