Os juros e a incerteza política

A campanha é parte indisfarçável das preocupações

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2018 | 03h00

Sem susto político, os juros básicos poderão ficar em 6,50% até o fim do ano, sem causar maior problema aos negócios e à criação de empregos. Se isso se confirmar, a manutenção da taxa básica neste semestre será a principal contribuição do Banco Central (BC) à sustentação – e talvez ao fortalecimento – da atividade econômica até a posse do presidente eleito em outubro. Essa perspectiva é compatível com o cenário de referência apresentado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Com muita cautela, os membros do comitê evitaram sinalizar o rumo das próximas decisões, mas os cenários prospectivos incluídos no informe apontam inflação próxima da meta nos próximos dois anos. As prospecções são obviamente condicionais e incluem uma avaliação dos principais fatores de risco, mas, por enquanto, as condições favoráveis a preços em alta moderada parecem prevalecer. Mas vale a pena rever os perigos levados em conta na deliberação de 1.º de agosto e, de modo especial, a incerteza interna, mencionada de forma diplomática. Sem referência explícita, a campanha eleitoral é um componente indisfarçável das preocupações.

Os principais perigos externos estão ligados ao aperto gradual das condições de crédito nos Estados Unidos e aos desdobramentos do conflito comercial entre Estados Unidos e China. A mudança na política monetária americana envolve a elevação gradual dos juros. Isso afeta o financiamento internacional, mexe nos fluxos de capitais e provoca a valorização do dólar, empurrando para baixo principalmente as moedas de países emergentes, incluído o real. Mas, segundo a ata, houve “certa acomodação” nos mercados financeiros.

Esses mercados têm refletido também as tensões criadas pelo protecionismo comercial. O cenário se mantém “desafiador”, mas sem justificar, por enquanto, mudança na política de juros do Copom. O quadro externo poderá, no entanto, afetar seriamente a inflação e outros aspectos da economia brasileira, se as dúvidas sobre a continuidade dos ajustes e reformas afetarem a confiança dos investidores e financiadores.

Em seis passagens da ata há referência à necessária arrumação das contas públicas e à realização de reformas necessárias à saúde financeira do Estado e à modernização da economia. Outros temas também aparecem mais de uma vez nas várias seções da ata, mas há uma ênfase especial quando se trata da questão fiscal e das ações para tornar a economia mais flexível e mais eficiente.

Esses fatores são apontados como essenciais para a manutenção de juros favoráveis à sustentação dos negócios. “Todos os membros do comitê voltaram a enfatizar que a aprovação e a implementação das reformas, notadamente as de natureza fiscal, e de ajustes na economia brasileira são fundamentais para a sustentabilidade do ambiente com inflação baixa e estável, para o funcionamento pleno da política monetária e para a redução da taxa de juros estrutural da economia, com amplos benefícios para a sociedade.” Essa advertência já apareceu em outras atas e ganha especial importância, neste momento, com a referência, em outro parágrafo, ao “maior nível de incerteza da atual conjuntura”.

Inflação e juros dependem de fatores objetivos e também da avaliação de tendências, e isso é lembrado em outra passagem: “O comitê ressalta ainda que a percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes”.

Até o fim do ano essa percepção será afetada com intensidade crescente pela disputa e pelo resultado da eleição presidencial. Nem todos os candidatos parecem preocupados com esses fatos e com o risco de piora das expectativas. Nem todos parecem sequer levar em conta um comentário, simples e fundamental, da secretária executiva do Ministério da Fazenda, Ana Paula Vescovi: “Independentemente das escolhas que venhamos a fazer, por um Estado maior ou menor e mais focado, é importante que saibamos que é preciso financiá-lo”. E para isso é preciso algo mais que populismo e promessas de acesso fácil ao Paraíso.

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