Os juros e a prudência

Talvez os membros do Copom encontrem bons argumentos para justificar um corte de juros nesta semana, mesmo com o risco de reforçar a tese da influência política

O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2016 | 04h01

 

O chanceler José Serra deu ao Banco Central (BC) mais um motivo para manter os juros em 14,25% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para hoje e amanhã. Pode-se defender com outros argumentos a manutenção da Selic, a taxa básica, pelo menos até a deliberação prevista para o fim de novembro. Mas a fala de um dos ministros de maior prestígio – figura apontada, há alguns meses, como possível ocupante de um ministério econômico – tem peso especial, ainda mais depois do destaque atribuído a suas palavras em grandes meios de comunicação. A autoridade monetária tem procurado preservar a imagem de autonomia operacional. Poderá agir, agora, como se nada tivesse ocorrido?

Segundo o ministro de Relações Exteriores, estão sendo criadas condições, com as medidas de ajuste fiscal e com o recuo da inflação, para a queda dos juros nos “próximos meses”. A declaração, feita por ele em Goa, na Índia – onde acompanhava o presidente Michel Temer, que participou da reunião de cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e assinou, com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, acordos de cooperação entre os dois países –, pode parecer ocasional e sem implicação política, até pela referência aos “próximos meses”. Mas outro detalhe temporal pode fazer diferença: o comentário foi feito no domingo, dois dias antes do início da reunião do Copom.

Além disso, outra coincidência chama a atenção. Segundo a maioria das fontes do mercado financeiro citadas pela imprensa, uma redução da taxa básica será anunciada oficialmente na quarta-feira, logo depois da reunião do comitê. Esses especialistas divergem apenas em relação ao tamanho do corte, 0,25 ou 0,5 ponto porcentual. Poucos manifestam alguma dúvida quanto ao anúncio de algum corte.

Nenhuma palavra da autoridade monetária, no entanto, confere fundamento a essa aposta. Há pouco mais de uma semana, em Washington, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, reagiu com muita prudência à notícia da inflação – de apenas 0,08% – muito baixa em setembro. Ainda seria preciso, disse ele, verificar se a inflação tende a cair, nos próximos meses, em ritmo suficiente para permitir o alcance da meta de 4,5% em 2017, com juros menores. Ele recordou, além disso, outra condição apontada várias vezes pelo Copom como essencial para o afrouxamento da política: uma significativa redução da incerteza quanto à redução dos desajustes econômicos.

Por enquanto, a proposta de criação de um teto para o gasto público só foi aprovada em primeira votação na Câmara dos Deputados. Depois da segunda, ainda faltará a aprovação em dois turnos no Senado. O avanço já conseguido será considerado suficiente? Além disso, o projeto de reforma da Previdência, ainda nem apresentado, será desimportante para a decisão do Copom? Ou valerá a pena esperar pelo menos a apresentação e o início do debate político?

Uma rara opinião discordante, no mercado financeiro, tem sido a do economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, Nilson Teixeira. Um pequeno corte dos juros, neste momento, pouco ajudaria a recuperação da atividade e, além disso, a decisão envolveria riscos importantes. Além disso, quem pode estar seguro quanto à tendência dos preços? Desde 2009, lembra o economista, as projeções divulgadas pelo BC no Relatório de Inflação de setembro sempre subestimaram o resultado do ano seguinte. Enfim, e mais importante, o quadro fiscal continua sendo um importante entrave ao recuo da inflação, mesmo com o programa de controle de gastos. Uma estratégia mais segura, segundo ele, seria iniciar um “longo e expressivo” ciclo de cortes quando a inflação estivesse perto da meta – e a partir daí fixar objetivos mais ambiciosos. Estes comentários saíram dia 14 no jornal Valor.

Talvez os membros do Copom encontrem bons argumentos para justificar um corte de juros nesta semana, mesmo com o risco de reforçar a tese da influência política. Nesse caso, as próximas explicações do Copom serão com certeza as mais interessantes desde a retomada da alta de juros em 2013 – e o cenário apresentado ao público será muito mais animador do que imaginam os cidadãos prudentes.

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