Os maus presságios do Copom

Não esperem juros mais baixos e crédito mais fácil nos próximos meses, se isso depender do Banco Central (BC), apesar dos sinais de recessão prolongada, com mais desemprego e mais estragos no sistema produtivo. Esta é uma das mensagens principais do relatório trimestral de inflação divulgado ontem. Pelas projeções do BC, a economia encolherá 3,5% neste ano e, além de mais magra, ficará mais fraca: o investimento em máquinas, equipamentos e obras diminuirá mais 13% – depois de já ter recuado 14% em 2015. Além disso, o pior desempenho será novamente o da indústria de transformação. O produto do setor diminuiu 9,7% em 2015 e deverá diminuir mais 8%. Será um retrocesso também qualitativo.

O Estado de S. Paulo

01 Abril 2016 | 03h00

A inflação ainda estará em 6,6%, acima, portanto, do limite de tolerância (6,5%), e só atingirá a meta anual de 4,5% no primeiro trimestre de 2018. De toda forma, já deverá estar no fim do ano bem abaixo dos 10,36% acumulados nos 12 meses até fevereiro. Mesmo assim, é cedo para pensar na “hipótese de flexibilização monetária”, advertem os autores do documento.

Apesar das projeções, o Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pela política de juros e pelas diretrizes do crédito, promete trabalhar para manter a inflação dentro do limite de 6,5%, em 2016, e para atingir a meta em 2017. As estimativas para este e para os próximos dois anos são tomadas, portanto, como desafios. Mas o próprio relatório oferece quase nenhum fundamento para otimismo quanto aos preços e à atividade econômica.

Os preços administrados, como os da energia elétrica, devem subir menos neste ano, depois de ajustes muito fortes em 2015. Além disso, a pressão do câmbio tem sido mais fraca. Mas os preços têm perdido impulso principalmente por causa do desemprego elevado e da menor demanda dos agentes privados. Do lado do governo a história é outra. As contas públicas, segundo o relatório, continuam fornecendo muito combustível para a inflação.

O efeito da recessão aparece, no dialeto dos bancos centrais, numa referência ao “hiato de produto mais desinflacionário que o inicialmente previsto”. O hiato é a diferença entre o produto efetivo e o potencial. No caso do Brasil, a economia está funcionando bem abaixo da capacidade. Isso tem freado a inflação mais fortemente do que se esperava, segundo reconhece o pessoal do BC. Quanto à política fiscal, continua sendo fator de enorme insegurança.

O texto aponta incertezas “quanto ao processo de recuperação dos resultados fiscais e sua composição”. Além disso, realça a importância de uma “trajetória de superávits primários” para fortalecer a “percepção de sustentabilidade do balanço do setor público”.

Nesta altura, essa hipótese é quase uma fantasia. O governo pretende rebaixar de R$ 24 bilhões para R$ 2,8 bilhões o superávit primário (sem os juros) planejado para o ano, mas com tolerância para um déficit de até R$ 96,65 bilhões. Superávit primário, na melhor hipótese, só a partir de 2017. Isso dependerá de uma porção de fatores econômicos e políticos e qualquer aposta, neste momento, é muito arriscada.

Em mais de uma passagem o relatório associa as incertezas a “eventos não econômicos”. Dirigentes e técnicos do BC usam essa expressão há algum tempo, nos documentos oficiais, para designar a crise política. Não há referência, no relatório, à Operação Lava Jato nem ao risco de impedimento da presidente da República, mas esses fatores correspondem obviamente aos “eventos não econômicos”.

A economia internacional, segundo o relatório, também é um fator de insegurança, com menor crescimento no mundo rico e na China. Mas o cenário externo produz muito menos insegurança que os problemas internos, segundo esclarecem logo no começo do texto os autores do relatório. Também o pessoal do Copom se recusa, portanto, a levar a sério a conversa da presidente Dilma Rousseff e de alguns de seus auxiliares sobre as causas externas da crise brasileira.

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