Os novos juros e seus limites

Estimular a recuperação da economia, com juros mais baixos e crédito mais fácil, é a prioridade atual da autoridade monetária, segundo explicou em Nova York o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn

O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2017 | 03h03

Estimular a recuperação da economia, com juros mais baixos e crédito mais fácil, é a prioridade atual da autoridade monetária, segundo explicou em Nova York o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn. A inflação, afirmou, está sob controle, e as condições econômicas tornam recomendável uma política mais suave. Falando a investidores, ele reiterou a disposição de manter uma política “acomodatícia”, isto é, com “taxas de juros abaixo do nível estrutural”. Em outras palavras, a ideia é manter um certo afrouxamento por um tempo razoável, para criar condições mais favoráveis ao consumo, à produção e à retomada do investimento produtivo. Esse recado já havia sido transmitido, no Brasil, depois da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no começo do mês. Até quando será possível manter essa orientação? A resposta envolve decisões políticas fora do alcance do BC.

O Copom começou a cortar a taxa básica de juros, a Selic, no fim de outubro do ano passado. Com essa política, a taxa passou de 14,25% ao ano para 8,25%. Novos cortes poderão ocorrer, ainda este ano, e o próximo provavelmente será inferior ao padrão recente de 1 ponto porcentual. De toda forma o amaciamento continuará. As projeções correntes no mercado apontam uma taxa básica de 7% no fim de 2017 e nos 12 meses seguintes.

Essas estimativas são compatíveis com um cenário de inflação moderada, de 3,08% neste ano e de 4,12% no próximo. Para 2019, as expectativas são de alta de preços pouco maior (4,25%), acompanhada de um repique nos juros, para 8%.

Esses números correspondem, de modo geral, ao cenário de inflação sob controle mencionado em Nova York pelo presidente do BC. O quadro se completa com projeções de crescimento econômico bem moderado de 0,60% em 2017, 2,20% em 2018 e 2,50% em 2019. Um ritmo na vizinhança de 2% corresponde, poderia ter acrescentado Goldfajn, ao potencial de crescimento estimado para o Brasil por vários especialistas.

Esse potencial é muito baixo quando comparado com a média das demais economias emergentes. Para romper esse limite serão necessários alguns fatores conjunturais – como investimentos maiores em máquinas, equipamentos e obras – e estruturais – como a reforma da Previdência. Ao facilitar a dinamização da economia, a política “acomodatícia” do Copom favorecerá a retomada de investimentos pelo setor privado, mas isso eliminará apenas parte dos entraves.

A equipe econômica segue batalhando pela reforma da Previdência. Não há segurança quanto à aprovação do projeto, ou pelo menos de suas partes mais importantes, neste ano. “Continuamos tratando a reforma da Previdência como tema prioritário”, disse na terça-feira passada o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Eduardo Guardia. A despesa previdenciária, lembrou, continua numa trajetória insustentável de crescimento. Se nada for feito, dentro de algum tempo faltará dinheiro para outras despesas do setor público.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, havia insistido no assunto, ao falar depois da cerimônia de posse de Raquel Dodge como chefe da Procuradoria-Geral da República. “Não podemos correr o risco de entrar em 2018 com a [REFORMA DA]Previdência pendente”, disse o ministro. Ele ainda mencionou a hipótese, bem pior, de se iniciar o próximo governo com o assunto ainda em discussão.

A mudança das normas de aposentadorias e pensões será essencial para uma reordenação duradoura das finanças públicas. Sem isso, o esforço de ajuste será incompleto. Então, as contas públicas avançarão para um desastre, segundo as previsões mais confiáveis.

O progresso no ajuste das finanças federais tem sido apontado em documentos do Copom como condição para uma política de juros mais branda. Contas públicas em desordem têm sido um importante fator inflacionário. Não haverá inflação sob controle por muito tempo sem progresso no esforço de arrumação fiscal. Um recuo nesse esforço tornará inviável uma política de crédito mais favorável ao crescimento.

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