Os produtos do atraso político

O mais recente episódio a abalar o governo provisório de Michel Temer, a demissão de Romero Jucá do Ministério do Planejamento menos de duas semanas depois da posse, escancara a falência de um sistema político-partidário que coloca em conflito os interesses nacionais com os de grupos comprometidos até a medula com a tradição secular de predomínio do patrimonialismo na gestão da coisa pública. O senador Romero Jucá, aliás, é um símbolo exemplar desse viés de subdesenvolvimento cultural e político: em mais de 40 anos de vida pública, manteve-se sempre aliado aos poderosos de turno, independente de alternâncias no poder.

O Estado de S. Paulo

25 Maio 2016 | 03h00

É nesse ambiente – e não em meio a políticos com acendrado espírito público – que Michel Temer tem de dar uma resposta rápida e eficiente às questões políticas, econômicas, sociais e morais que herdou ao assumir a Presidência interina da República. Para enfrentar tamanho desafio, necessita de apoio parlamentar que garanta tramitação ágil das medidas, muitas delas impopulares, que precisa implementar. 

Essa necessidade, premente e óbvia, levou o presidente em exercício a montar sua equipe de governo não com os notáveis que todos certamente desejavam, mas com os recursos humanos que estavam à mão e, por isso mesmo, tinham condições de tocar os negócios parlamentares nos únicos termos que o corpo legislativo conhece e pratica.

Embora tenha tomado o cuidado de reservar os cargos da área econômica para profissionais de competência técnica comprovada, curvou-se à lógica do sistema e compôs quase todo o restante do Ministério com a turma do toma lá dá cá capaz de garantir os votos de que o governo vai depender no Congresso. Com isso, Temer assumiu o enorme risco de incluir na equipe políticos com o rabo preso em investigações de corrupção.

Muitas hesitações e claros equívocos cometidos desde a formação do Ministério devem-se a essa circunstância infeliz e, talvez, incontornável. Essa desventura foi agravada por uma oposição que, inconformada com o afastamento de Dilma Rousseff, enveredou claramente pela estratégia do revanchismo do quanto pior, melhor.

As dificuldades nas quais Michel Temer tem tropeçado nos primeiros dias do exercício da Presidência têm sido provocadas, em alguma medida, pela enorme pressão que a conjuntura excepcional exerce sobre ele. Não se trata de nada mais do que a lógica perversa de um sistema político patrimonialista, acomodado numa estrutura partidária que conspira contra a legitimidade genuína da representação popular. A isso se acresce um sistema legal que faz as despesas públicas crescerem em ritmo mais acelerado que o crescimento da economia nacional.

É no vórtice desse conflito entre as razões de Estado e as razões da política – frequentemente incompatíveis por aqui – que o governo Temer se debate, colocando em risco a possibilidade que se abre, com o afastamento de Dilma Rousseff, de serem resgatadas, com a urgência que a situação impõe, as boas práticas fiscais e econômicas capazes de tirar o País do fundo do poço em que terminou ao cabo de mais de 13 anos de lulopetismo.

A presteza do presidente Temer na exoneração de Romero Jucá demonstra sua correta preocupação de evitar que o episódio contamine o ambiente político e repercuta mais amplamente ainda na opinião pública, em prejuízo da aprovação das medidas fiscais e econômicas que já estão no Congresso. Além disso, Temer ratifica aquilo que os brasileiros consideram hoje um dogma: são intocáveis os mecanismos de combate à corrupção e seus agentes, simbolizados pela Operação Lava Jato.

É aconselhável, portanto, que o presidente atente com cuidado para as vulnerabilidades de sua equipe de governo nessa questão e adote as providências cabíveis, por mais dolorosas que possam ser para ele próprio, para evitar a quebra definitiva da tênue esperança que o País ainda nele deposita.

Depois disso, será hora de pensar a sério na reforma política.

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