Os refugiados venezuelanos

Há quase 20 anos no poder na Venezuela, o regime chavista vem produzindo crises cada vez mais graves

O Estado de S.Paulo

16 Junho 2017 | 03h00

Há quase 20 anos no poder na Venezuela, o regime chavista – antes com Hugo Chávez e, desde 2013, com Nicolás Maduro – vem produzindo crises cada vez mais graves. Suas consequências econômicas, políticas e sociais já não se restringem às fronteiras do país. Conjugando forte repressão política, crescente recessão econômica, altos índices de inflação e carência de itens básicos de alimentação e consumo, o caos na Venezuela tem levado grande número de venezuelanos a buscar refúgio no Brasil, como mostrou reportagem especial de Pablo Pereira, publicada no Estado.

Segundo a Superintendência da Polícia Federal em Roraima, entre janeiro e maio deste ano, 28,8 mil venezuelanos entraram no Brasil pelo município de Pacaraima, que dista 212 km de Boa Vista (RO) e faz fronteira com a Venezuela. Desse total de pessoas, 11 mil já retornaram à Venezuela. Os que ficaram no País tentam reconstruir a vida nas cidades brasileiras perto da fronteira ou em Boa Vista. Há refugiados até mesmo em Manaus, que fica a 700 km da capital de Roraima.

A afluência de refugiados aumentou especialmente desde o final do ano passado, em razão da interrupção da distribuição de alimentos que o governo venezuelano fazia. Em geral, os refugiados que entram pelo município de Pacaraima são indígenas da etnia warao. Atualmente, a média de atendimentos na fronteira é de cerca de 100 casos de solicitação de entrada por dia.

O drama dos refugiados na região adquiriu tamanha dimensão que vem despertando a preocupação de outros países. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, tem estudado formas de colaboração. Recentemente, alguns diplomatas americanos estiveram em Pacaraima para reuniões com líderes de organizações que dão suporte aos refugiados venezuelanos. De acordo com um dos diplomatas americanos ouvidos pelo Estado, as informações sobre os refugiados são preocupantes.

Um dos abrigos visitados pelos diplomatas atende cerca de 300 refugiados, em sua maioria indígenas, sendo 80 crianças. O volume de trabalho no local impressiona. “Estamos trabalhando nisso desde novembro do ano passado e já fizemos 113.554 atendimentos”, disse o chefe da Defesa Civil, coronel Doriedson Ribeiro. Em geral, os atendimentos consistem na distribuição de refeições, feitas com doações de entidades e empresas. Supermercados doam frutas, por exemplo. “Muita gente está oferecendo apoio”, reconheceu Freyo Viana, presidente da Associação Venezuelanos no Brasil.

Mesmo assim, a colaboração recebida até o momento é insuficiente para um atendimento minimamente adequado aos refugiados. “Há ainda um forte impacto sobre o sistema de educação e saúde de Boa Vista. A cidade não estava preparada para aguentar (essa sobrecarga), além da preocupação com a segurança pública”, afirmou o chefe da Defesa Civil.

Muitos dos refugiados, especialmente os de origem indígena, preferem ficar em Pacaraima, que é uma cidade pequena, de apenas 11 mil habitantes. “Queremos ficar aqui, trabalhar aqui”, disse o chefe de um grupo de indígenas. Eles se aglomeram perto da estação rodoviária da cidade, à beira da Rodovia 174. As possibilidades de trabalho são escassas. Alguns refugiados conseguem tarefas de capina e outros serviços gerais, recebendo diárias que variam de R$ 20 a R$ 100.

Diante da precária situação de Pacaraima, o Exército brasileiro planeja montar um abrigo temporário para os refugiados, usando um espaço que antes servia de depósito de carros do Detran. Serão 35 barracas de lona, com capacidade para 10 pessoas cada uma. “Temos condições de montar o abrigo provisório em 30 ou 40 dias”, disse o comandante do Exército em Roraima, general Gustavo Dutra. O objetivo é atender principalmente os refugiados que estão vivendo nas ruas.

O drama dos refugiados venezuelanos mostra a gravidade de ser conivente, como foram os governos petistas, com um regime que assim trata sua população.

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