Os rumos do agronegócio

A agropecuária tem oportunidades animadoras

O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2018 | 05h00

O aumento das exportações para a China e o boom das commodities trazem boas perspectivas para o setor agropecuário brasileiro, conforme se constatou durante o 4.º Summit Agronegócio Brasil, promovido pelo Estado. Por exemplo, em outubro de 2018, houve um aumento de 132% das exportações brasileiras de soja para a China. Ao mesmo tempo, há no setor certa inquietação com a política comercial a ser empreendida pelo próximo governo a partir do ano que vem. Para aproveitar as oportunidades internacionais, é preciso dedicar-se às parcerias atuais e futuras, sem restringir mercados por questões ideológicas.

“O Brasil, como todos os outros, pode e deve ter sempre uma atitude pragmática e negociar oportunidades comerciais onde houver espaço”, disse o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, que participou do evento por vídeo. Azevêdo lembrou que o comércio global tem um grande potencial a ser explorado pelo Brasil, “principalmente no agronegócio”. Mesmo sendo o maior fornecedor global de carne bovina, o País tem acesso a apenas 50% dos compradores mundiais. “Temos condições econômicas e sanitárias para nos destacar e ocupar mais espaço”, disse Fernando Galletti de Queiroz, presidente da Minerva Foods.

Os participantes do Summit Agronegócio foram unânimes em reconhecer a importância de reforçar laços comerciais com os EUA e a China e dar atenção especial aos países árabes, grandes importadores de proteína animal. “Estamos vendo, pelos EUA, como não se deve tratar os clientes”, disse Michael McDougall, vice-presidente da empresa americana ED&F Man Capital Markets, em referência à política comercial de Donald Trump.

Outro ponto largamente debatido no evento foi a urgência de o País enfrentar e resolver alguns entraves importantes, que afetam negativamente toda a cadeia produtiva, como é o caso da infraestrutura e logística. Além de reduzida, a malha de transporte - composta por rodovias, hidrovias, portos e ferrovias - apresenta graves deficiências, com problemas de instalação e manutenção. Por exemplo, a Região Centro-Oeste, principal produtora de grãos do País, encontra dificuldades para escoar a produção.

Para mudar esse panorama, é preciso investir mais. Segundo Elisangela Pereira Lopes, analista técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o setor recebe hoje 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em investimento. “Em meados da década de 70, esta parcela era de 2%”, disse. O caminho é ampliar, com segurança jurídica, as oportunidades de investimento privado na infraestrutura de transportes.

Outro gargalo para o agronegócio é a burocracia. Em média, a aprovação de uma nova molécula de defensivo no País leva mais de seis anos. Nos Estados Unidos e no Canadá, esse prazo é de dois anos. Um dos objetivos do Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, conhecido como PL dos Agrotóxicos e atualmente em estudo pela Câmara dos Deputados, é reduzir a burocracia dos órgãos reguladores.

Um problema recente que vem causando estragos na lucratividade do setor agropecuário é a tabela de fretes mínimos, cuja constitucionalidade está em análise pelo Supremo Tribunal Federal. A tabela é uma das razões para o aumento do custo de produção e, entre outras consequências, reduziu o ritmo de expansão da produção de soja para 2019.

O 4.º Summit Agronegócio Brasil também contou com a participação das agritechs, startups voltadas a soluções agropecuárias. Por meio de inteligência artificial e outras tecnologias, são cada vez mais variadas as ferramentas que auxiliam a gestão e a produtividade das fazendas. De acordo com os participantes do evento, uma das limitações para um uso mais amplo da tecnologia no campo é a falta de conectividade no meio rural. Apenas 14% das lavouras brasileiras estão conectadas. Nos Estados Unidos, cerca de 80% das fazendas têm acesso à internet.

A agropecuária brasileira tem oportunidades especialmente animadoras. Não há razão para não aproveitá-las.

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