Os tumultos em Jirau

Os tumultos registrados no canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia, só alcançaram proporções assustadoras e tornaram indispensável a remoção, para a capital, Porto Velho, e cidades próximas, de até 22 mil trabalhadores porque faltou uma ação pronta e eficaz dos responsáveis pela segurança pública no local. Tendo começado como um incidente entre um grupo de operários da obra e funcionários da empresa de ônibus local, que não foi contido a tempo, o conflito se espalhou, transformando-se em verdadeira rebelião. "A tropa da Polícia Militar perdeu o controle", reconheceu Victor Paranhos, presidente do consórcio responsável pela obra, ESBR.

, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

Dos atos de vandalismo iniciados na madrugada de quinta-feira e que se repetiram algumas horas depois, participaram até 400 pessoas - algumas encapuzadas, segundo as autoridades de Rondônia - e deles resultaram a destruição total ou parcial de alojamentos, 45 ônibus e 15 outros veículos, áreas de serviços e lazer e até um sistema público de abastecimento de água.

Por causa da extensão dos danos e da necessidade de remoção dos trabalhadores para as cidades próximas, o que levou à paralisação total da obra, o problema passou a exigir a ação do governo federal. O ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, ouviu o governador de Rondônia, Confúcio Moura, e dirigentes das empresas que participam do consórcio ESBR, vencedor da licitação para a construção e operação de Jirau, como a construtora Camargo Corrêa e a Tractebel. O secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, discutiu o assunto com prefeitos, sindicalistas e organizações sociais da região. O Gabinete de Segurança Institucional passou a acompanhar a situação. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou o envio de 600 homens da Força Nacional para controlar a situação.

Muitos trabalhadores que estavam alojados no canteiro de obras tiveram de abandonar o local às pressas e nem puderam recolher roupas e documentos. Outros não esperaram os ônibus contratados pelo consórcio responsável pela obra para levá-los às cidades próximas e saíram do local a pé tão logo começou o incêndio nos alojamentos. Todos ficaram em alojamentos precários, com dificuldades até para obtenção de comida.

Já houve três paralisações da obra, por problemas trabalhistas, antes disso, mas, desta vez, as empresas que participam do consórcio ESBR garantem que os trabalhadores recebem em dia seus salários e não reclamam de problemas na área trabalhista. O Sindicato dos Trabalhadores de Construção Civil de Rondônia confirma que não houve motivação trabalhista nos tumultos. Como as autoridades, diz que o que ocorreu foi "vandalismo".

O principal objetivo das autoridades e do consórcio responsável por Jirau é normalizar a situação, restabelecendo o controle no canteiro de obras, mantendo os trabalhadores contratados - muitos não querem mais voltar ao trabalho -, reconstruindo o que foi destruído, para então reiniciar as obras. É quase como refazer boa parte do que se fez nos últimos quatro anos.

Jirau é uma das maiores obras em execução do País, uma das mais caras (está orçada em R$ 13 bilhões) e uma das mais importantes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e o governo vem tentando acelerar ao máximo sua construção para mais rapidamente poder apresentar resultados concretos de seu programa, cuja elaboração teve nítido objetivo político-eleitoral. De acordo com o presidente do consórcio ESBR, Victor Paranhos, o desvio do rio está praticamente concluído, com 95% do vertedouro executado. Metade dos equipamentos já se encontra no canteiro de obras e está sendo protegida por forças policiais, que guardam também os armazéns de explosivos.

Mas os distúrbios aumentam o risco de atraso na entrega da hidrelétrica, que, pelo cronograma atual, deveria entrar em operação em março do ano que vem. O consórcio ESBR pretende reiniciar as obras. Mesmo assim, como admitiu seu presidente, "o episódio pode provocar reavaliação (de prazos)."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.