Otimismo a 9 mil quilômetros

Meirelles falou em Paris sobre perspectivas de crescimento do Brasil

O Estado de S.Paulo

08 Junho 2017 | 03h05

Crescem as apostas no Brasil, motivadas pela pauta de reformas, enquanto em Brasília se joga o futuro do governo. Em Paris, a cerca de 9 mil quilômetros da capital federal, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, falou nesta quarta  sobre as perspectivas de crescimento a partir do programa de ajustes e mudanças conduzido pela atual administração. O ambiente era bem menos nervoso que o da Praça dos Três Poderes. De manhã, novas estimativas para o País haviam sido anunciadas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), como parte da atualização do panorama global. Pelas novas projeções, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve aumentar 0,7% em 2017 e 1,6% em 2018. As previsões de março eram de expansão zero neste ano e de 0,1% no próximo.

O novo quadro é em parte explicável pelos números do primeiro trimestre, quando o PIB foi 1% maior que nos três meses finais de 2016, de acordo com a estimativa oficial publicada no começo do mês. Mas a avaliação também foi influenciada por outros fatores. A inflação em queda tem possibilitado a redução de juros, consumidores e empresários têm exibido mais confiança e a liberação das contas inativas do Fundo de Garantia deve reforçar as finanças familiares.

Mas a recuperação apenas começou, o desemprego continua muito alto, a economia permanece fechada, o buraco das contas públicas ainda é grande e um maior impulso ao crescimento dependerá de reformas, segundo a análise publicada pela OCDE. Além disso, a incerteza política associada a denúncias de corrupção “poderá reverter a recente recuperação da confiança e alimentar dúvidas sobre a implementação de reformas estruturais”.

Seria bobagem menosprezar essas preocupações e advertências ou, pior, reeditar as bravatas costumeiras da presidente Dilma Rousseff e de seus ministros mais incompetentes. Sem perder tempo negando fatos e problemas indisfarçáveis, o ministro Henrique Meirelles falou sobre os esforços para sustentar a recuperação, fortalecer a economia nacional e abrir caminho para um crescimento mais veloz e duradouro.

O recado foi transmitido na reunião ministerial da OCDE e numa conferência sobre perspectivas da América Latina. O governo, segundo ele, está comprometido com objetivo mais amplo que a superação da crise. A ambição, explicou, é fazer da pior crise registrada no Brasil o ponto de partida para uma agenda de modernização.

A economia brasileira, reconheceu, é muito fechada, e um programa de abertura deve ser parte essencial de um esforço de aumento da produtividade e do poder de competição. A pauta de reformas deve favorecer tanto o fortalecimento das finanças públicas como a redução de custos empresariais, a simplificação dos negócios e os ganhos de agilidade.

Para indicar o avanço do programa, citou a aprovação do projeto de reforma trabalhista em comissão do Senado. Mencionou também a criação de um teto para os gastos públicos, a alteração na lei de conteúdo nacional e a lei de governança das estatais como comprovações da amplitude da pauta modernizadora e do progresso conseguido em um ano.

O ambiente era amigável, até otimista, e o ministro foi muito bem recebido pelo diretor-geral da OCDE, Angel Gurría, mas a resposta adequada só poderia ser um discurso de mudança e de realismo em relação aos problemas. O governo já havia indicado um compromisso com a seriedade ao pedir – com grande atraso em relação a alguns outros latino-americanos – o ingresso na organização, uma espécie de clube de economias desenvolvidas e emergentes comprometidas com padrões de estabilidade e de integração. Isso inclui, entre outros pontos, compromissos quanto às políticas de câmbio e de fluxo de capitais.

A conversa foi amigável, mas franca, e o ministro brasileiro transmitiu a mensagem adequada. Mas a modernização, a estabilidade e a integração internacional dependem do futuro do governo e das percepções da realidade global dominantes em Brasília, onde parte dos políticos mantém ideias de meio século atrás.

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