Outra ação desastrada

Mais uma morte durante perseguição policial nos últimos dias na capital – primeiro a de dois meninos de 10 e 11 anos e agora a de um jovem de 24 anos – reforça a necessidade de as autoridades da área de segurança pública reverem em profundidade a maneira de agir dos policiais nas situações de abordagem de suspeitos. E atitude ainda mais drástica se espera dos comandos nas Guardas Civis Metropolitanas (GCMs), pois agentes desses organismos se envolveram indevida e arbitrariamente nesses lamentáveis episódios, que escapam de sua alçada.

O Estado de S. Paulo

30 Junho 2016 | 03h00

Na madrugada de terça-feira, por volta das 3 horas, o universitário Julio Cesar Alves Espinoza desobedeceu a ordem de parar o carro que dirigia, dada por policiais militares que consideraram suspeita a sua atitude de estar “rondando” nas imediações do bairro do Ipiranga. O jovem fugiu em direção da Avenida Presidente Wilson, na Mooca, depois foi para São Caetano do Sul. Nesse ponto, ao perdê-lo de vista, os policiais pediram ajuda à GCM daquela cidade.

De novo na capital, na Avenida do Estado, o carro de Espinoza colidiu com um muro. Nesse momento, antes que a fuga prosseguisse, um dos policiais disse ter dado quatro tiros e os agentes da GCM outros sete na direção dos pneus do carro. A perseguição só terminou mais adiante. No total, de acordo com vistoria feita pela delegada Sílvia Cordeiro Mendanha, o carro tinha 17 buracos de bala, um deles que “teria sido” feito por disparo de dentro do carro. A explicação dada pelos policiais é que eles e os agentes da GCM reagiram depois de terem visto “um clarão” e ouvido “estampidos de arma de fogo vindos do interior do carro”.

Espinoza levou um tiro na cabeça e morreu no Hospital Estadual Vila Alpina. O pai de Espinoza reconheceu que o filho – que tinha recebido várias multas de trânsito e voltava de um trabalho extra feito justamente para pagá-las – lhe havia dito que por isso não respeitaria ordem de parar da polícia. O que não justifica o comportamento dos policiais. Mas o pai negou que o filho tivesse arma e usasse droga, que os policiais alegam ter encontrado no carro.

A perseguição deixa claro o despreparo dos que dela participaram – sem falar na presença irregular dos agentes da GCM –, desde a decisão de mandar Espinoza parar o carro, por razão nada convincente, até o encontro de arma e droga no carro, cuja veracidade resta ser comprovada, passando pela alegada resposta a tiros disparados por Espinoza, que também parece inconsistente. Sem falar nos 16 tiros que os policiais e GCMs admitem ter disparado contra o carro. A reação do ouvidor da polícia, Júlio César Fernandes Neves, foi a mesma de qualquer pessoa de bom senso: “Foi muito tiro. Não é normal”.

Espera-se que o inquérito instaurado esclareça o que se passou. Igualmente importante é que esse e os episódios semelhantes dos últimos dias, somados a muitos outros que povoam o noticiário policial, demonstram que é urgente reavaliar o treinamento recebido pelos policiais militares, sem falar na necessidade de os prefeitos das cidades que têm GCM porem um fim na participação irregular de seus agentes nesse tipo de operação.

Está certo o prof. Leandro Piquet Carneiro, da USP, quando afirma que ações como essas fogem a qualquer padrão internacional e “não têm justificativa”. A seu ver, é insuficiente o treinamento recebido pelos policiais para enfrentar tais situações: “O policial precisa aprender a controlar o medo e a raiva, o que é muito difícil, porque são reações profundas. A tarefa é criar respostas condicionadas, automáticas, nessa grande instituição, o que não é fácil”.

Embora esse seja um caminho difícil e longo, só mudanças profundas no treinamento da Polícia Militar poderão fazer com que, cada vez mais, seus agentes sejam capazes de seguir à risca seus protocolos e de responder à altura – ou seja, ao mesmo tempo com rigor, equilíbrio e estrito respeito à lei – ao desafio do combate ao crime. É isso que deles espera a população, que os arma e da qual eles são servidores.

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