Outra meta não cumprida

A do lixo reciclável é outra meta do prefeito Fernando Haddad que não será cumprida. Embora tenha sido apresentada, a exemplo das demais, como mais uma das grandes transformações prometidas aos paulistanos – tanto a modéstia como o realismo estão longe de ser marcas do atual governo –, ela vai ficar a léguas de distância do prometido, pois a essa altura, no segundo trimestre do último ano do mandato, o atraso é tão grande que não há a menor possibilidade de sequer chegar perto do objetivo fixado.

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2016 | 03h00

A meta de Haddad era reaproveitar 10% do lixo reciclável produzido na capital, mas só um quarto dela será atingido. O prefeito poderá dizer que mais do que dobrou a quantidade de lixo processado nas usinas de triagem e nas cooperativas de catadores: 85 mil toneladas no ano passado contra 40 mil toneladas em 2013, primeiro ano de seu mandato, um aumento de 112%. Parece muito, mas na verdade estão sendo reciclados apenas 2,5% dos 3,4 milhões de toneladas de lixo reciclável geradas por ano pelos paulistanos.

Seria demais esperar que o prefeito e seus auxiliares admitissem francamente esse rotundo malogro. Eles nunca deram provas desse comportamento que convém aos administradores públicos de fato preocupados com a população, que deles exige a verdade. Já deram mostras de preferirem as explicações esfarrapadas ou a tática de insinuar que cabe aos outros a responsabilidade pelos próprios erros. Conforme o caso, ou foi o governo federal que não repassou verbas prometidas, nas quais se confiou imprudentemente, ou foi o Tribunal de Contas do Município (TCM) que atrasou obras com suas exigências – legítimas e procedentes, diga-se de passagem –, como aconteceu com os corredores de ônibus.

Mas dessa vez houve exagero nas piruetas. O diretor de Planejamento e Desenvolvimento da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb), Samuel Oliveira, saiu-se com essa: “A meta existe para ser perseguida”. O Conselheiro Acácio não teria dito melhor. E a coisa não para aí. Segundo ele, ficou-se longe dos prometidos 10% por causa da “lei da oferta e procura”.

A explicação parte do fato de que os caminhões que recolhem o lixo reciclável passam em geral apenas um dia por semana, e os do lixo comum seis dias. “Vamos passando uma vez. Quando vemos que a quantidade é insuficiente, porque a demanda cresceu, podemos aumentar a oferta”, afirma Oliveira, que interpreta como lhe convém a famosa lei – o que é sempre melhor do que simplesmente revogá-la.

Na prática, para funcionar isso depende da ação dos moradores, não da Prefeitura, o que seria normal. Quando um zeloso morador de uma rua do Butantã, como mostra reportagem do Estado, solicitou a passagem de mais caminhões, responderam-lhe que a quantidade de lixo reciclável ali produzida e disponível não justificava isso. Ele organizou então a coleta na vizinhança e os caminhões apareceram. Mas sumiram depois que, por divergência entre os vizinhos, a demanda voltou a cair.

O malogro da ação da Prefeitura nesse caso é ilustrado também pelo que aconteceu com a lei que regulou a distribuição de sacolinhas pelo comércio e a sua utilização pelos moradores para separar o lixo reciclável do orgânico. Mais de um ano depois do início da aplicação da lei, nenhuma multa pelo seu desrespeito foi aplicada. Ou todos estão se comportando impecavelmente ou a fiscalização falhou, o que é sem dúvida mais provável.

O resultado da incapacidade da Prefeitura de aumentar significativamente a quantidade de lixo reciclado – que vem de longe, o que não exime de culpa o atual governo, principalmente porque ele ficou muito distante do prometido – é que a cidade está muito mal colocada nesse setor. Basta dizer que em média as cidades europeias já reciclam 35% de seu lixo, devendo chegar a 50% em 2020.

Mesmo considerando suas condições financeiras e técnicas mais favoráveis, não se justifica a enorme distância de São Paulo, com 2,5%, em relação a elas.

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